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Casimiro Lumbandanga: militância de toda uma vida também na arte

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Tendo o continente africano como palco de sua encenação, a série fotográfica Faces, em exposição no Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, carrega em seus retratos, de forma vigorosa, o resgate de um passado doído e a persistência da luta pela igualdade racial. Quem se depara com os olhares lancinantes flagrados na Aldeia Mana Culele, em Angola, no entanto, sequer imagina a grandeza do homem que se esconde por trás da lente daquela câmera.

Nascido em Vila Pureza, bairro próximo ao campus da USP em São Carlos, Casimiro – agora batizado como Casimiro Paschoal “Lumbandanga” da Silva – tem muito a contar a qualquer um que o instigue a falar sobre seu passado. Embora atualmente seja técnico de rede na Seção Técnica de Informática da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC), sua história com a Universidade se inicia lá atrás, aos 12 anos de idade, quando passou a ajudar o pai a desempenhar suas funções no trabalho dentro do campus – e dessa data ele se recorda com precisão: 14 de setembro de 1970.

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Filho de mãe e pai que só tiveram o ginásio como formação, Casimiro Paschoal tinha de dividir o pão com outros nove irmãos (que, a princípio, eram dez), assim como suas tarefas durante a construção de seu lar. Nostálgico, ele conta: “na Vila Pureza, nós trabalhávamos derrubando casas antigas para construir outras novas. A maioria era simples, mas minha casa foi feita de barro. Quando chegava o fim de semana, juntava tudo que era primo e parente para ‘cavucar’ o quintal e fazer um processo coletivo de construção”.

Durante a conversa, lhe vem à memória com acentuada vivacidade as festas que envolveram sua infância e adolescência. Muitas delas, realizadas na casa de sua avó, começavam na sexta-feira e findavam somente no entardecer do domingo. Regadas a muita comida e bebida, os eventos festivos eram embalados pelo batuque dos músicos da Vila e de algumas figuras marcantes do bairro, como o “Dito Sanfoneiro”.

Em ocasiões semelhantes, a comunidade negra de São Carlos também costumava se aglutinar para festejar no Grêmio Recreativo Familiar Flor de Maio, onde “todas as famílias levavam salgado, bolo e bebida e colocavam música para as pessoas aprenderem a dançar charme e samba rock”.

No entanto, apesar da aparente simplicidade de momentos como esses, algo para além da boa música e da reunião entre velhos conhecidos estava em jogo. Anos depois, Casimiro olha o passado e diz perceber como não tinha a noção exata do que significava a congregação dos negros nesses espaços lúdicos, principalmente no que se refere às raízes escravocratas da cidade interiorana de São Carlos, uma das últimas a abolir a escravidão. “Minha educação foi bastante rígida, então eu não tinha muita liberdade para conversar com meus pais sobre o entendimento do racismo. Quando se começava a falar sobre a história do negro e da África, existia uma grande resistência”, afirma.

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Mostra é resultado de uma viagem à cidade angolana de Huambo | Foto: Casimiro Lumbandanga

Toda a cultura que cerceava seu processo de crescimento somada à sua inserção precoce no ambiente universitário envolveram Casimiro na militância da questão racial aos 13 anos. O Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (Caaso), um dos maiores centros acadêmicos da América Latina, foi sua porta de entrada para a luta estudantil. A partir de então, o jovem começa a entender o que é ser negro tendo como respaldo os movimentos que emergiam nos EUA durante a década de 1970, como o Black Power e os Panteras Negras. “No meu quarto, as paredes eram cheias de pôsteres. Metade era fotografia da Playboy, a outra metade era de líderes negros que eu admirava, como Mandela, Malcolm X e Martin Luther King”.

Debruçando-se sobre literaturas avançadas a partir dos 15 anos e já envolto num processo de busca de identidade, ele também acompanhou a ditadura civil-militar em meio às bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha enquanto integrante do DCE.

Nesse meio tempo, ao frustrar-se com as listas imensas de exercícios do curso de Estatística, Lumbandanga decide abandonar o curso na UFSCar para ingressar em Ciências Sociais.

Em 2013, tendo em vista sua atuação nos mais diversos movimentos negros e seu engajamento político de uma vida toda, Casimiro Paschoal “Lumbandanga” da Silva vai até a cidade de Huambo, “a fim de buscar sua ancestralidade e identidade africanas, bem como reencontrar a íntima relação entre suas raízes africanas e o imaginário de uma população marcada por histórias de guerras, guerrilhas e sofrimentos – incluindo a escravidão”.

Foto: Casimiro Lumbandanga
Foto: Casimiro Lumbandanga

Sobre essa temática, o fotógrafo, poeta e músico complementa falando sobre o tráfico de escravos no Brasil colonial e sua escolha por aderir ao nome de batismo. “Nós até identificamos de onde os negros saíram, mas percebemos que as pessoas não têm seu nome de raiz. Os negros saíam com seus nomes, a Igreja os destituía da condição de humano e os transformavam em escravos, fazendo com que fosse perdido o vínculo com a Terra-Mãe África”.

Diferentemente de japoneses e italianos que vieram com seus “arcabouços identitários”, Casimiro Paschoal também cita o fato das pessoas, no Brasil, identificarem o negro por sua cor, não por sua condição histórico-cultural. Eis mais uma motivação que o levou à sua jornada especialmente registrada em fotos e poemas.

Atualmente, Casimiro praticamente não possui tempo livre, já que se divide, ao longo da semana, entre seu emprego na EESC, o projeto de criação da memória institucional da Universidade em São Carlos e os ensaios de sua banda de jazz, onde toca “sax, flauta, clarinete e tudo o mais que tiver de soprar”, brinca.

Serviço

A exposição Faces pode ser visitada até o dia 30 de outubro na Biblioteca do IFSC, de segunda a sexta-feira, das 8 às 22 horas, e aos sábados, das 9 às 12 horas. O endereço é Av. Trabalhador são-carlense, 400 – Pq. Arnold Schimidt, São Carlos-SP.

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