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Com “dobraduras” de DNA, equipe da USP participa de competição em Harvard

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Nos próximos dias, um grupo de dez alunos da USP se despede do Brasil para participar de uma competição anual de design biomolecular voltada para estudantes, em Boston, nos Estados Unidos. Na mala, um projeto ambicioso envolvendo modelagem de DNA para agilizar reações químicas. Esta é a primeira vez que uma equipe brasileira se aventura na BioMod, desafio organizado pelo Instituto Wyss, da Universidade de Harvard.

A proposta do grupo envolve uma tecnologia conhecida como DNA Origami, nome inspirado nas dobraduras japonesas, que faz uso dessas estruturas fundamentais presentes nas células para criar suportes em escala nanométrica com os mais diversos objetivos. No caso da equipe de universitários, batizada de Protomatos, a ideia é criar uma expanded nanocage que reúna e organize, da melhor forma possível, vias metabólicas. É como criar uma caixinha perfeita para que a “linha de montagem” que envolve as reações possa operar da melhor maneira, mas, nesse caso, a caixa é uma estrutura geométrica complexa: um octaedro truncado cujas arestas são feitas de oligonucleotídeos, ou seja, trechos curtos de DNA.

“O projeto propõe um processo com aplicações biotecnológicas. Consiste em organizar enzimas, proteínas que realizam reações químicas, de modo programado em escala nanométrica para aumentar a eficácia da produção de determinados produtos biológicos, como fármacos e essências”, explica o graduando Lucas Nishida, um dos integrantes da equipe. Entre as tarefas solicitadas pela competição estão a criação de um site descrevendo todo o processo e também a elaboração de um vídeo curto e acessível de divulgação. Veja a seguir a produção do time Protomatos e entenda melhor o projeto:

Para prever a estrutura ideal para a nanocage foi usado um software desenvolvido em uma pesquisa de doutorado do Instituto de Física (IF) da USP, sob orientação do professor Cristiano Luis Pinto. O programa leva em conta o número e tamanho das enzimas envolvidas no processo. A estrutura construída pela equipe será, assim, uma prova de conceito do software, ou seja, um modelo prático que evidencie sua teoria.

Uma nova forma de fazer ciência

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Além da ciência de ponta envolvida em seu projeto, o que mais chama a atenção na Protomatos – nome que vem da aglutinação de “proto” (primeiro, começo) e “matos” (pensamento, vontade pessoal) – é a diversidade de seus integrantes. Clarissa Reche é estudante de ciências sociais. Otto Heringer, de química. Já Danilo Zampronio é mestrando em biotecnologia. Outros sete alunos integram o time multidisciplinar que desenvolveu o projeto selecionado para a competição em Harvard. O encontro de cabeças tão diferentes se deu no Clube de Biologia Sintética da USP, iniciativa acadêmico-estudantil apoiada pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária que reúne estudantes de vários cursos interessados nessa área nova e promissora.

Para pagar, além dos custos de produção do site e do vídeo, as inscrições e passagens para poder participar da competição, esse grupo multidisciplinar iniciou uma campanha de financiamento coletivo pela internet. A meta inicial era arrecadar R$ 7.000, mas a equipe conseguiu mais que o dobro: R$ 15.049. Como recompensa para quem colaborasse com o projeto, eram oferecidos colares, chaveiros e cadernos inspirados em moléculas. As doações vieram de todo o país. “Isso foi algo que nos surpreendeu bastante, conseguirmos ter uma abrangência tão ampla. E no fim, o sucesso da campanha nos motivou bastante num momento crítico do desenvolvimento do projeto para seguirmos em frente”, conta a estudante Nicolli Damázio.

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A visão inovadora da Protomatos sobre o fazer científico vai ainda além: são apoiadores dos movimentos open science, biohacking e DIYbio. “A ciência aberta está relacionada à nossa vontade de divulgar abertamente nosso projeto e seu desenvolvimento. O biohacking e o DIYbio estão ligados a essa subversão que fizemos na lógica usual da ciência”, afirma a graduanda em Ciências Biomédicas. Nicolli explica que são movimentos que já permeavam os encontros do Clube de Biologia Sintética e que influenciaram o caráter que a equipe tomou. “Nós tivemos ideias primeiro e depois, para desenvolvê-las e nos financiar, buscamos ajuda de professores, fizemos uma campanha de financiamento coletivo e vendemos chaveiros e colares que nós mesmos fabricamos”.

Próximos passos

A Biomod acontece nos dias 31 de outubro e 1 de novembro, na Universidade de Harvard, localizada em Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos. Lá, a Protomatos, assim como as outras 29 equipes selecionadas, de países como Alemanha, China, Japão e Índia, terá que fazer uma apresentação de 10 minutos – a última etapa a somar os pontos que definirão os grandes vencedores. 

Para o estudante Pedro Ribeiro, graduando do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, todo o processo envolvido no desenvolvimento do projeto já foi uma espécie de prêmio. “A experiência, a divulgação científica, a mobilização que possibilitamos já valeram a pena”, afirma. “Ainda não sabemos se continuaremos desenvolvendo atividades como equipe, mas temos muito interesse em continuarmos juntos. Certamente continuaremos a nos encontrar nas reuniões do Clube de Biologia Sintética”.

Mais informações: http://protomatos.net e http://www.facebook.com/TeamProtomatos

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