Filmes levam discussão sobre cultura indígena para a escola

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Uma pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP utilizou sinopses de filmes com temática indígena para incentivar os estudantes a conhecer e debater a história e a situação atual dos índios brasileiros. Para auxiliar os professores a abordarem o assunto, a historiadora Lais Sanchez selecionou cenas que levassem os estudantes a discutir o tema.

O resultado das discussões entre alunos da Grande São Paulo é descrito na dissertação de mestrado de Laís intitulada Ensino de história indígena através do cinema: uma experiência pedagógica. A lei 11.645, de 2008, determina que a cultura indígena esteja presente nos conteúdos das aulas de História no ensino fundamental e médio.

Para seu estudo, Laís selecionou nove filmes dentre todos assistidos, escolhidos a partir de suas possibilidades didáticas. “Foram escolhidos filmes que permitissem aos alunos entender e analisar a linguagem cinematográfica como elemento constitutivo da produção fílmica”, aponta Lais. “Também entraram na seleção filmes que apresentassem diversas imagens sobre as populações indígenas e filmes produzidos pelos próprios cineastas indígenas”.

Os filmes escolhidos foram Caramuru, a invenção do Brasil (2001), Como era gostoso o meu francês (1970), Hans Staden (1999), Iracema, a virgem dos lábios de mel (1979), Iracema, uma transa amazônica (1975/1985), O Guarani (1996), Terra Vermelha (2008), Uma História de Amor e Fúria (2013), Xingu (2012), e Cineastas Indígenas – Panará (2005-2008). Os planos de trabalho foram aplicados no Colégio João Friaza, escola particular localizada no município de Embu Guaçu, na Grande São Paulo. “Linguagem cinematográfica é o conjunto de elementos que constroem e dão sentido ao filme”, ressalta a pesquisadora. “Para trabalhar com o cinema na sala de aula é necessário trabalhar com os alunos a aprendizagem da leitura fílmica, determinados cortes, enquadramentos, trilhas sonoras, enfim, os elementos constitutivos do filme, que apresentam informações importantes sobre a mensagem transmitida pelo filme”.

Lais trabalhou com turmas de Ensino Fundamental II e Ensino Médio, nas aulas de História e de uma disciplina intitulada “Linguagem Cinematográfica”. Para cada filme, foram elaboradas sinopses didáticas. “Por acreditar que cada professor enfrenta uma realidade diferente em suas salas de aula escolhi não optar pelo roteiro e sim por uma análise detalhada de cada filme”, conta. “Com análises feitas nas sinopses, o professor poderá se orientar a partir de algumas temáticas, estabelecer recortes e ainda associar o trabalho com diversos filmes”.

Construção de imagem

Os filmes foram exibidos aos alunos, alguns integralmente e outros a partir de recortes temáticos. “Foi pedido aos alunos que elaborassem análises críticas sobre as obras, além do trabalho de aprendizagem sobre linguagem cinematográfica e discussões acerca da atualidade das populações indígenas”, afirma Lais. Um exemplo desse trabalho é a discussão sobre “Terra Vermelha”. “Sabendo que o filme é uma ficção, os alunos foram instigados a pensar sobre qual a imagem ele constrói para os grupos indígenas atuais”.

A reflexão começa com a primeira cena, ambientada no Mato Grosso do Sul. Os indígenas Guarani-Kaiowá aparecem nus, armados com arco e flecha, em um local na mata possível de ser visto por turistas, guiados pela esposa de um fazendeiro e, depois, sendo pagos pela “exibição”, colocando suas roupas, mostrando que se tratava de uma prática de encenação usual. “A partir desta cena, os alunos disseram que os índios estão representando para passar, ao grupo de turistas, a ideia de ‘isolados’ e ‘selvagens’, denunciando o estereótipo criado há muito tempo sobre os povos indígenas e que é o esperado pelos turistas”, aponta a pesquisadora.

Os aspectos cinematográficos destacados pelos alunos foram os cortes secos, o posicionamento da câmera e as mudanças de ritmo. “Por exemplo, quando a câmera acelera e apresenta a presença de Anguè, o espírito mau. Este foi um recurso fílmico bastante didático por permitir trabalhar a importância da montagem e edição das imagens, como parte da linguagem do cinema”, observa Lais. “Outro exemplo foi a trilha sonora. As músicas ‘de rádio’ que os índios ouviam, foram encaradas com surpresa pelos alunos, mas depois eles entenderam como um aspecto que sugeria a assimilação da cultura não-indígena”.

De acordo com a pesquisadora, o trabalho com a linguagem cinematográfica levou os estudantes a perceberem como os discursos se constituem a partir das formas como são apresentados nos filmes. “Como resultado do trabalho muitas visões puderam ser desconstruídas e as representações indígenas foram questionadas”, destaca. “Os alunos aprenderam não só sobre as populações indígenas presentes nas produções fílmicas, mas puderam refletir sobre o silenciamento historiográfico ao qual essas populações foram submetidas”, conclui. A orientadora do trabalho foi a professora Antonia Terra de Calazans Fernandes, do Departamento de História da FFLCH.

Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Mais informações: email laissanchez@gmail.com, com Lais Sanchez

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