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Encontro internacional dá nova luz aos conflitos políticos pelas lentes da psicanálise

Publicado em Sociedade, USP Online Destaque por em

Entre os dias 23 e 27 de novembro, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP recebe parte do oitavo Encontro da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia. É a segunda vez que o evento acontece no Brasil, tendo passado por países como Chile, Estados Unidos, Alemanha e França.

Organizado pelo professor Vladimir Safatle, do Departamento de Filosofia da FFLCH, o encontro vai concentrar quatro dias de conferências e apresentações de papers, seguidas por debates que se estenderão para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o Centro de Arte Contemporânea Inhotim.

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Vladimir Safatle | Foto: Marcos Santos

O tema da nova edição é “Psicanálise e as formas do político” e tem como objetivo principal discutir a atualidade da psicanálise dentro da esfera política. “A política não precisa ser pensada somente como uma reflexão estruturada sobre as formas das identidades coletivas”, explica Safatle ao assentir que, quando evocada para o grande público, a palavra “política” usualmente diz respeito ao ato de governar e as instituições que dão forma e unidade para a identidade nacional. Para a organização do evento, no entanto, é premente mostrar como a psicanálise pode acrescentar suas singularidades ao centro do pensamento político.

“Nova Concepção de Conflito”

Criada pelo neurologista Sigmund Freud no final do século 19, a psicanálise surgiu como uma teoria de investigação sobre o comportamento humano. Indo além dos sujeitos individuais, “a psicanálise apareceu também como um modelo de crítica da cultura”, pontua o professor. Dentro desse modelo, reflexões sobre política sempre estiverem presentes. “Seja na investigação sobre as estruturas dos ciclos sociais ou o que caracteriza um vínculo social sem identidade, a relação entre psicanálise e política é uma constante”, esclarece.

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Sigmund Freud | Foto: Wikimedia Commons

A linha de pensamento, que atravessou o século 20, chega portanto ao novo século como uma teoria estabelecida. Para o pensamento político, pesquisadores que se encontrarão no evento, trarão a contribuição de uma “nova concepção de conflito”.

Em uma de suas principais obras, “O Mal-estar Na Civilização”, Freud tornou-se notório por defender que para o bem da coletividade, o indivíduo é oprimido em seus desejos e vive um “mal-estar”.

É também com base nessa conclusão que Safatle, filósofo e pesquisador do campo da psicanálise, defende ser preciso expandir o entendimento sobre a natureza complexa dos conflitos que assolam a sociedade. “Queremos explicar que a idéia de conflitos sociais não inclui só conflitos por redistribuição de riqueza. São modalidades do reconhecimento dos sujeitos como consciências desejantes”, pontua ele. “Vamos falar de desejos políticos”, sumariza.

Psicanálise e a crise atual

Sob a sombra de acontecimentos trágicos que envolvem uma guerra na Síria, a migração de milhões de refugiados para o continente europeu e os recentes atentados promovidos pelo grupo terrorista Estado Islâmico na capital francesa, o Encontro pretende trazer para o centro do debate a interpretação da psicanálise sobre a natureza por trás dos conflitos que assolam o planeta. Interpretação que, como todo posicionamento crítico, assume opiniões dissonantes sobre temas tão complexos.

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Slavoj Zizek | Foto: Wikimedia Commons

Em uma entrevista recente para o jornal Folha de S. Paulo, Slavoj Zizek, filósofo esloveno e também estudioso da psicanálise, afirmou que a militarização das fronteiras europeias seria uma possível solução para a crise dos refugiados. Para o polêmico pensador, a integração dos refugiados ao “modo de vida europeu” não se daria sem confrontar grandes barreiras políticas e culturais.

Para Safatle, que admite apreciar análises políticas de Zizek, a declaração sobre militarização é, todavia, “infeliz”. Na opinião do pesquisador é preciso lembrar, em primeira instância, a responsabilidade direta do continente europeu pela atual conjuntura no Oriente Médio. “A Europa assinou uma série de acordos sobre refugiados, existe uma obrigação de todos esses países que devem usar a ONU como um espaço de discussão”.

Sobre os eventuais conflitos sociais que envolvem o “estilo de vida” dos refugiados, ou seja, suas identidades culturais, o professor retoma a necessidade de se repensar a política sob a luz da psicanálise. “Não dá mais para continuar pensando esses problemas no interior do Estado-Nação, da noção de que existe uma identidade nacional em risco”, afirma ao defender que, esse tipo de crise internacional deveria “firmar o esgotamento terminal do Estado-Nação”. Para ele, é por causa da ideia de identidade nacional que a presença de migrantes é considerada uma afronta, sem ela, ela não seria objeto de “tanta vociferação”.

Lembrando que o preconceito é um problema universal, Safatle pontua que nossas sociedades “vivem em choque cultural contínuo por elas mesmas”. Defender que refugiados entrarão em crise com o modo de vida de países que lhes são estranhos é, em sua opinião, acreditar que vivemos em uma sociedade liberal que permite multiplicidades sem barreiras. Algo que não é real já que não são apenas os conflitos sociais entre diferentes povos que constituem o “eixo do antagonismo”.

Sobre o evento

Para extrapolar os limites entre política, filosofia e a psicanálise à luz dos acontecimentos atuais, o Encontro colocará no centro do debate questões como dinâmicas do poder, identidade coletiva, a natureza do capitalismo e fenômenos específicos, tal como uma compreensão distinta do populismo, que pode ajudar a esclarecer também as atuais circunstâncias da crise política enfrentada pelo Brasil.

O evento contará com a participação de professores, psicanalistas e pesquisadores de todo o Brasil e de diversos outros países.

No dia 23 de novembro, as conferências e as comunicações são apresentadas no Conjunto Didático de Filosofia e Ciências Sociais da FFLCH. Já no dia 24, as apresentações acontecem no Instituto de Psicologia (IP) da USP. O evento segue ao longo da semana na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) até o dia 27 de novembro. A entrada é gratuita e aberta ao público.

A programação completa pode ser consultada aqui.

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