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Tradicionais na área da saúde, ligas acadêmicas complementam aprendizado de alunos

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No início do século 20, em meio a um forte impulso da indústria e elevado crescimento populacional, a cidade de São Paulo enfrentava um cenário de disseminação de doenças venéreas, entre elas a sífilis. Após o fechamento de um posto de combate à doença, alunos de medicina decidiram criar um serviço gratuito de tratamento que marcou o início da Liga de Combate à Sífilis, a mais antiga da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

As ligas acadêmicas são entidades compostas fundamentalmente por estudantes, sob a supervisão de um professor, e propõem o aprofundamento em determinados temas por meio de atividades práticas e teóricas. Unindo pesquisa, ensino e extensão, as ligas promovem atendimentos, cursos e seminários, além de ações junto à comunidade, aproximando os alunos de suas áreas de interesse e fomentando uma formação mais ampla.

Alunos da Liga de Sífilis em 1938
Alunos da Liga de Sífilis em 1938 | Foto: Departamento de Dermatologia da FMUSP

“Quando entrei, percebi que a Liga proporcionava o treinamento da relação médico-paciente, que é algo muito discutido na Faculdade, mas pouco visto na prática, além de você poder acompanhar toda a evolução do paciente, desde o tratamento inicial até a cura, passando por reinfecções ou quaisquer outras eventualidades que possam ocorrer”, relata o estudante de medicina Gabriel Polho, atual presidente da Liga de Combate à Sífilis e outras DSTs, como atualmente é denominada.

Segundo o graduando, as atividades dessa Liga contemplam a parte prática de aplicação de injeções, punção venosa para acompanhamento sorológico e outras modalidades terapêuticas para tratamento de outras doenças sexualmente transmissíveis. Foi a possibilidade de atuar no ambulatório já no início do curso o que atraiu Roberta Vasconcelos, hoje dermatologista, para a Liga de Sífilis. “Quando você entra na faculdade, quer ser médico logo, aprender, ter contato com os pacientes. A liga traz isso mais rápido”, afirma a médica, que participou também da Liga Multidisciplinar de Assistência Pré-Natal durante a graduação.

Protagonismo

Membros da Liga de Hanseníase em atividade junto à Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto
Membros da Liga de Hanseníase em atividade junto à Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto | Foto: Karen da Silva Santos

As ligas estudantis são presididas por um aluno e contam sempre com a coordenação de pelo menos um professor. “Nosso papel é fazer germinar a autonomia da liga, fazer aflorar a criatividade dos alunos sem, no entanto, deixar ‘solto’. O coordenador acompanha as atividades, mas não toma o lugar da presidência: o aluno tem protagonismo”, afirma a professora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) Cinira Magali Fortuna, tutora da Liga de Hanseníase. Criada em 2013, a liga desenvolve atividades diversas, inclusive junto à Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto e ao Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) da cidade.

Além dos atendimentos semanais no ambulatório do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e reuniões na EERP, os alunos fazem visitas a centros de excelência na área e organizam campanhas em escolas. Neste ano, a Liga lançou o documentário Hanseníase recontada, revivida, que registrou depoimentos de portadores e ex-portadores da doença. “O aluno constrói o conhecimento de uma outra forma”, explica a professora Cinira. “As atividades estão fora do currículo, mas têm tudo a ver com ele”.

Participação

Foto: Francisco Emolo
Foto: Francisco Emolo

Para ingresso nas ligas, em geral, é necessário participar de um curso introdutório e realizar uma prova de admissão. Esse é o caso da Liga Interdisciplinar de Implantodontia da Faculdade de Odontologia (FO), uma das mais recentes da unidade. Quanto à participação de primeiranistas, cada liga tem autonomia para decidir se aceita ou não, explica o estudante Matheus Torsani, diretor de Extensão do Departamento Científico da FMUSP, setor responsável pelo cadastramento e apoio aos acadêmicos responsáveis pelas ligas. “Como algumas participações demandam um maior conhecimento dos alunos em áreas específicas da Medicina, em várias Ligas há restrição quanto à entrada de calouros”, esclarece. Segundo o aluno, diversas ligas médicas são multidisciplinares, ou seja, aceitam alunos de outros cursos da área da saúde. Até mesmo alunos de fora da USP podem participar, desde que autorizados pelo professor responsável.

No caso da Liga de Hanseníase da EERP, alunos de qualquer ano de todo o campus podem participar como membros e se candidatar para a diretoria – não há requisitos ou processo seletivo. “As reuniões são muitas vezes ministradas pelos alunos, o conhecimento de todos é construído em conjunto, sendo assim aprendemos juntos durante o ano”, explica a atual presidente da liga, Marcela Gonçalves.

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