Pesquisa da ECA resgata a história de grupos sem representação política

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Silvio Augusto Junior / Laboratório Agência de Comunicação (LAC)

Estudar a diversidade étnico-cultural de um país como o Brasil não colabora apenas para o resgate das histórias de muitos brasileiros, mas contribui como fonte de informações para discutir os conflitos na contemporaneidade. Por meio de entrevistas biográficas, o professor Ricardo Alexino Ferreira, do Departamento de Comunicações e Artes (CCA) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, está desenvolvendo um projeto de pesquisa, com o apoio da FAPESP, que procura histórias de vida que possam revelar novos olhares sobre os estudos da diversidade no Brasil e no mundo.

O problema

Ferreira conta que, para definir a terminologia utilizada na pesquisa, precisou rever alguns conceitos no percurso da elaboração do seu trabalho, ressaltando a importância de encontrar uma palavra que fosse adequada e que não expressasse nenhum tipo de preconceito. Para ele, termos como “minoritários” ou “minorizados” não traduziam, com clareza, qual o significado ou os motivos para se utilizar essas palavras: “O termo criava confusão quando se tratava de comunicação. Fazia-se uma associação com a quantidade de indivíduos. Os negros, por exemplo, são mais de 50% da população do País, mas são um ‘grupo minoritário’. Por isso a escolha do termo sócio-acêntrico, porque o sentido maior seria dizer que esses grupos não tem representação social e política.”

Ao pensar em questões amplas como a difusão dessa representação semântica na mídia, o pesquisador escolheu como suporte teórico os conceitos de etnomidialogia, uma área de pesquisa criada no final do século XX para estudar, entre outros fenômenos, a construção social a partir das suas representações pela mídia. Com foco nessa temática há praticamente duas décadas, Ferreira defendeu, em 2011, sua tese de livre-docência na ECA, a qual propõe o debate sobre Os critérios de noticiabilidade da mídia impressa na cobertura de grupos sócio-acêntricos em abordagem etnomidialógica.

Memória e multimídia

O trabalho pretende resgatar histórias biográficas de indivíduos que fazem parte de grupos sócio-acêntricos, como, por exemplo, negros, mulheres e pessoas do segmento LGBT. A coleta do material será feita por meio de gravações e entrevistas, além de pesquisa bibliográfica e uma profunda discussão sobre a representação dos grupos já citados nos veículos de comunicação. O projeto será iniciado com segmentos brasileiros e se expandirá para outros países africanos lusófonos (Angola, Moçambique, Cabo Verde e outros). Ao final do trabalho, será publicada uma espécie de enciclopédia com os nomes de cientistas, artistas, esportistas, entre outros representantes de grupos, os quais, segundo o professor, contribuíram significativamente para o desenvolvimento da humanidade.

A metodologia escolhida, centrada no estudo da etnomidialogia, trabalhará o método do livro-reportagem-multimidiático-memória, relacionando a interação e o caráter híbrido dos veículos de comunicação e suas respectivas linguagens. Para Ferreira, essa escolha está muito ligada à capacidade que o ser humano tem de elaborar narrativas: “Provavelmente o que nos difere dos outros animais não seja nem o que se fala sobre a capacidade de se comunicar, mas, sim, a capacidade de narrar. É uma tentativa de contextualização dentro de uma história. O livro-reportagem possui em sua essência um caráter sistêmico, trabalhando ativamente os conceitos de contextualização e função.”

Mais informações: (11) 3091-1622 

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