Pesquisa evidencia indefinição de funções para desenvolver esporte no Brasil

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O Brasil não possui uma definição clara dos papeis de estados e municípios no desenvolvimento do esporte de alto rendimento, revela pesquisa da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP. O trabalho investigou as políticas estaduais e municipais para o esporte de alto rendimento e como elas são avaliadas por atletas, técnicos e dirigentes.

De acordo com o estudo, coordenado pela professora Maria Tereza Silveira Böhme, embora as práticas esportivas estejam presentes nas escolas devido às exigências da legislação educacional, não há vínculos mais estreitos com o esporte de alto nível. As prefeituras se concentram no esporte participativo e o alto rendimento é mais trabalhado em nível estadual, apesar de existir poucos programas específicos.

A pesquisa é baseada no modelo criado pelo consórcio Sports Policies Factors Leading to International Sporting Success (SPLISS), composto por pesquisadores da Austrália, Bélgica, Holanda e Reino Unido e coordenado pela professora belga Veerle De Bosscher.

“O modelo se baseia na análise de nove pilares que representam fatores essenciais para o desenvolvimento do esporte de alto nível”, diz a professora Maria Teresa. “Os pilares são: suporte financeiro; organização e estrutura de políticas para o esporte; participação e esporte de base; identificação de talentos e sistema de desenvolvimento, suporte para atletas e pós-carreira; instalações esportivas; desenvolvimento e suporte para técnicos; competições nacionais e internacionais e pesquisa científica”.

Os estados escolhidos para o estudo foram selecionados a partir do número de atletas de alto rendimento integrantes de equipes olímpicas, do percentual do orçamento aplicado em esporte e a participação no Produto Interno Bruto (PIB). “A pesquisa abrangeu os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Amazonas e suas capitais, além do Distrito Federal”, conta a professora.

Para avaliar as politicas esportivas nos níveis estadual e municipal, 171 inventários sobre cada um dos pilares em cada estado e capital da amostra foram respondidos pelos pesquisadores. Depois foram feitas entrevistas junto a funcionários das secretarias estaduais e municipais de esporte e de educação. “As informações foram validadas e complementadas por meio de visitas aos locais estudados”.

Também foram aplicados questionários em atletas das modalidades do programa Brasil Medalha, do Comitê Olímpico Brasileiro e do Ministério do Esporte, voltado para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. As entrevistas incluíram atletas beneficiados pelo Programa Bolsa-Atleta do governo federal, integrantes das seleções estaduais, técnicos e gestores de clubes e federações.

A pesquisa evidencia a ausência de uma definição sobre os papeis de cada nível governamental no desenvolvimento do esporte, a exemplo do que ocorre com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. “As prefeituras se concentram no esporte escolar e participativo, mas não há um vínculo com o esporte de alto rendimento”, afirma Maria Tereza. “Este é mais trabalhado pelos estados, apesar de apenas São Paulo e Rio Grande do Sul terem programas específicos”.

Desenvolvimento esportivo

A pesquisa utilizou questionários específicos para cada pilar do modelo SPLISS. A partir da análise das respostas, cada item recebeu uma pontuação da qual foram calculados escores para cada pilar, que variam de 0,2 a 1, e indicam a situação do esporte em cada estado e município.

“As médias foram baixas para todos os pilares, com exceção do pilar 3, que apresentou índices médios e bons. Como a carga horária destinada à educação física é definida por legislação federal, todos os estados e municípios têm iniciativas nesse sentido”, aponta Maria Tereza. O estudo mostra por meio dos valores médios dos escores estaduais que as melhores condições para o desenvolvimento do esporte estão na região Sul (0,48), seguido pelas regiões Sudeste e Centro-Oeste (0,47), Norte (0,46) e Nordeste (0,45).

Entre os atletas, houve respostas sobre suporte financeiro e desenvolvimento, carreira e pós-carreira. “Os questionários indicam que não há uma definição sobre o acompanhamento a ser dado pelo sistema escolar, especialmente durante o ensino médio”, diz a professora. “O que existe é a possibilidade de reposição de provas, enquanto no exterior são utilizados recursos de ensino a distância para que os atletas se mantenham em dia com os estudos”, diz.

Grande parte dos atletas entrevistados cursa o ensino superior ou é diplomado. Em termos de suporte nas áreas de fisioterapia, biomedicina e preparação física, a avaliação dos atletas é positiva. “Entre os treinadores e gestores, no entanto, o conceito é menos favorável, com uma série de ressalvas”, afirma Maria Tereza. “É possível que essa diferença se deva a um maior conhecimento dos técnicos sobre o apoio aos atletas em outros países, que consideram melhor do que no Brasil”.

Entre as federações esportivas, poucas responderam às informações solicitadas. Os pesquisadores também não tiveram acesso junto às entidades representativas dos clubes esportivos brasileiros. A professora acredita que este fato se deve ao pequeno número de pesquisas nesta área no país.

Os resultados da pesquisa serão apresentados no segundo Simpósio Internacional sobre Políticas para o Esporte de Alto Rendimento (II Sipear), que será entre os dias 27 e 29 de janeiro na EEFE.

“Durante o evento serão divulgadas as conclusões do estudo, em cada pilar pesquisado. A discussão dará ênfase às questões de formação, desenvolvimento e carreira dos atletas”, relata a professora. “O simpósio terá a presença de pessoas que lidam com o esporte de alto rendimento na prática. O debate buscará encontrar formas de aprimorar o trabalho esportivo”.

Os resultados finais poderão ser consultados na íntegra no site do Laboratório de Treinamento e Esporte para Crianças e Adolescentes (Lateca), após a realização do simpósio.

Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Mais informações: email terbohme@gmail.com, com a professora Maria Teresa Bohme

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