Foto: Cecília Bastos

Obra do compositor Gilberto Mendes revive em novas gerações

Publicado em Cultura, USP Online Destaque por em

O professor André Ribeiro organizou o espetáculo “No mar de Mendes”, uma homenagem ao maestro e ex-professor da ECA que faleceu no início deste ano.

“Um bancário que fez música nas horas vagas”, assim se definiu um dos mais importantes compositores que viveu no Brasil. Ex-professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Gilberto Mendes marcou expressivamente os teatros e salas por onde se apresentava. No início deste ano, aos 93 anos, o maestro deixou órfã uma geração que foi profundamente influenciada por sua obra.

Com intuito de manter viva sua produção, aconteceu neste sábado, 5 de março, o espetáculo No mar de Mendes. Organizado pelo professor da ECA André Ribeiro, o evento prestou homenagem ao maestro santista reunindo três grupos de grande familiaridade com as obras de Mendes: Coletivo Capim Novo, Camerata Profana e o Coro Profano.

Foto: Divulgação
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A apresentação, um pouco diferente dos concertos tradicionais, manteve a essência do trabalho do músico, que sempre tinha uma carta na manga para surpreender o público. Além das recriações das peças, os grupos também fizeram pequenas intervenções durante o espetáculo, como por exemplo, a leitura com diferentes entonações de trecho dos livros A Odisseia Musical e Viver a Música, ambos do compositor.

O espetáculo trouxe obras que marcaram a produção de Mendes, percorrendo diferentes períodos de sua vida. Assim, além das intervenções sonoras livres, a apresentação tevealgumas obras compostas em sua homenagem. Para o professor André Ribeiro, No Mar de Mendes dá continuidade à obra do maestro, que não se encerra com a vida individual, mas que permanece sensibilizando novas gerações.

Música cênica

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Foto: Joca Duarte

De acordo com o docente, uma das peculiaridades de Mendes era a sua criatividade para reunir diversas expressões poéticas em um só concerto. Muitas vezes, ele utilizava elementos de poesia, cinema e teatro como aporte para construir suas peças. Ribeiro menciona que em um dos espetáculos, o compositor iniciou uma apresentação com características bem formais e, de repente, quebrando este clima, um ator entrou em cena para fazer uma narrativa. Em outros momentos, o compositor chegou até mesmo a duelar com o maestro que se apresentava no concerto.

Essa mistura do teatro com a música era muito presente em sua obra. “Ele sempre dava um jeito para que o intérprete tivesse também um papel cênico”, conta Ribeiro. Mendes, explica ele, tentava romper a barreira entre músicos e público e por isso suas peças eram repletas de humor, muitas vezes buscando o diálogo com a plateia. Na peça Santos Football Music, por exemplo, o compositor convida o público a interagir e fazer todos os tipos de sons vocálicos.

Conservando o estilo de Mendes, o Coro Profano inseriu no espetáculo diversos elementos cênicos. Um das peças apresentadas, “O Beijo”, trouxe uma performance com um casal que, durante o beijo, fez movimentos diferentes com a boca, causando a propagação de diversos sons na apresentação.

O espetáculo também contou com peças mais formais, como Retratos I e II, uma obra feita em homenagem à mulher de Mendes; e Urubuqueçaba, obra inspirada na ilha santista de mesmo nome, conhecida por ser cercada por urubus.

A música para todos

O compositor Gilberto Mendes | Foto: Cecília Bastos
O compositor Gilberto Mendes | Foto: Cecília Bastos

Gilberto Mendes costumava dizer que a ideia do culto à genialidade ainda era muito presente entre os eruditos. Logo no início dos estudos, os alunos se debruçavam sobre obras de grandes clássicos como Bach e Beethoven, e a meta de se tornar um grande compositor era quase uma regra dentro das escolas de música. Este “se levar a sério” dos músicos era considerado prejudicial por Mendes.

Nos anos 1960, um movimento conhecido como nacionalista prezava pela contemplação da riqueza artística brasileira e via com maus olhos as obras que vinham do exterior. Na contramão desta ideia, o compositor santista foi um dos idealizadores do “Manifesto Música Nova”, um documento de reação às críticas realizadas às produções vindas da Europa. De fato, o compositor inaugurou uma nova fase da música no Brasil, em que se abrem as portas para as produções contemporâneas, inspiradas nas vanguardas europeias.

Em espírito semelhante ao do Manifesto, Mendes também criou o “Festival Música Nova”, propiciando um espaço de difusão da música contemporânea no Brasil. O Festival ocorre até hoje com edições em São Paulo e Santos, recebendo todos aqueles que são apaixonados por música, independentemente de sua técnica artística.

Para Gilberto Mendes, conta o professor André Ribeiro, a música não era uma propriedade intelectual. “Ele gostava muito de partilhar seu conhecimento com outros artistas, receber músicos em sua própria casa – e por isso reuniu diversas gerações ao seu redor”. Gerações que, espera-se, serão responsáveis por dar vida longa à sua obra.

O espetáculo No mar de Mendes aconteceu na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos/SP.

Atualizado em 07/03/2016 12:50

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