Pesquisadora da USP em São Carlos cria dispositivo para camuflagem de objetos

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Dispositivos eletrocrômicos são sistemas inteligentes capazes de alterar a cor de vidros. Bastante versáteis, podem ser construídos de diferentes maneiras, com diversos materiais e pensando-se em várias aplicações, como janelas de edifícios e retrovisores de carros. As possibilidades de composição são inúmeras: desde moléculas orgânicas, géis poliméricos até filmes finos cerâmicos. Apesar de toda essa versatilidade e de já existir diversas utilizações em várias partes do mundo, as cores sempre ficam na faixa do azul, o que pode não ser bom para todas as aplicações. Mas agora isso mudou graças às pesquisas da professora Agnieszka Joanna Pawlicka Maule, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC). Ela desenvolveu um dispositivo eletrocrômico inédito, denominado camaleão, que possibilita alterar a cor do verde ao amarelo, em diversas tonalidades.

O dispositivo foi concebido pensando-se na área militar, para a camuflagem ativa em luz visível (ou seja, mudança de cor adaptando-o para as cores do ambiente externo). “Nós pensamos que ele poderá ser construído no formato de uma manta ou placa flexível ou mesmo tela para ser colocada sobre veículos ou tanques de guerra, ou outros equipamentos, com o intuito de camuflá-los”, explica a docente.

Os tons do verde ao amarelo permitem a camuflagem em ambientes como deserto, semi deserto, selva, terra ou montanha rochosa. Se o tanque estiver no meio de uma selva, o dispositivo camaleão vai “ler” a paisagem do entorno e mudará a cor da manta flexível (ou da tela ou da placa) para tons de verde, fazendo o tanque “misturar-se” com a paisagem. Mas se, em seguida, o tanque for deslocado para uma área desértica, o dispositivo camaleão vai honrar o nome que recebeu e mudará para tons amarelados, semelhantes aos do ambiente onde estiver, camuflando o tanque novamente. “Já existe tecnologia para camuflagem em luz não visível, como infravermelho. Mas para luz visível é algo inédito”, informa a professora. Um vídeo demonstrando o funcionamento do dispositivo está disponível neste link.

 

Os tons do verde ao amarelo permitem a camuflagem em ambientes como deserto, semi deserto, selva, terra ou montanha rochosa | Foto: Divulgação
Os tons do verde ao amarelo permitem a camuflagem em ambientes como deserto, semi deserto, selva, terra ou montanha rochosa | Foto: Divulgação

 

O projeto está em processo de patente no Brasil e na Comunidade Europeia. “Já fomos procurados por uma indústria militar da Europa que se interessou pelo dispositivo camaleão”, conta Agnieszka. Porém, ainda não há um protótipo construído (da manta flexível ou da tela ou da placa) e sim a tecnologia que permite modular a cor do dispositivo eletrocrômico do verde ao amarelo, em diversas tonalidades. A pesquisa foi desenvolvida em conjunto com o pesquisador Adam Januszko, do Instituto Militar de Engenharia e Tecnologia da Polônia.

A ideia é que o dispositivo camaleão seja composto por dezenas de “janelas”, semelhantes aos pixels do monitor de um computador, mas com tamanho maior, e que poderão ser comandadas individualmente para a mudança de cores, lembrando o padrão do camuflado. O funcionamento ocorrerá da seguinte forma: primeiro, uma máquina fotográfica tirará fotos do local. As imagens serão enviadas para um computador que as transformará em padrões de cores e depois em números. Esses números serão transformados em potencial elétrico e enviados para o dispositivo, que vai modular as próprias cores de acordo com as do ambiente.

Retrovisores e janelas

Um outro exemplo de dispositivos eletrocrômicos são os retrovisores de alguns veículos de luxo. Sensores captam a luz do farol alto do carro da retaguarda e, automaticamente, deixam o vidro do retrovisor interno escurecido, refletindo com menos intensidade a luz incidida. Um outro uso, mas menos comum — porém já existente —, são os dispositivos eletrocrômicos instalados em janelas de edifícios ou de aviões: elas escurecem, clareiam ou ficam transparentes de acordo com o desejo do usuário ou do piloto. Também já existem óculos eletrocrômicos. “É um campo muito abrangente para se trabalhar”, destaca a professora. O custo, porém, é bastante alto: aproximadamente US$ 2 mil o metro quadrado.

Agnieszka esclarece que esses dispositivos são semelhantes a baterias: dois pólos elétricos com um eletrólito (condutor elétrico) no meio que, ao aplicar uma determinada corrente ou potencial (voltagem) e, dependendo da polaridade (positiva ou negativa), podem ficar coloridos, descoloridos ou transparentes, sendo possível ligar e desligar, como uma tomada de luz, mas podem também funcionar com baterias ou células solares.

Os dispositivos eletrocrômicos são compostos por sete camadas: vidro, condutor transparente (carga positiva), reservatórios de íons, eletrólito, filme eletrocrômico (que muda de cor), condutor transparente (carga negativa) e vidro. “Essas camadas são muito finas, quase imperceptíveis e, por serem transparentes, parecem vidro comum. Portanto quando dispositivos eletrocrômicos são instalados em janelas é difícil distingui-los dos outros.”

Valéria Dias / Agência USP de Notícias

Mais informações: email agnieszka@iqsc.usp.br, com a professora Agnieszka Joanna Pawlicka Maule.

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