Estudo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo observa dinâmica das pichações em São Paulo

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Pesquisa empírica constatou que, além do respeito mútuo, pichadores formam sua identidade pelo sentimento de pertencimento à periferia

A pichação na cidade de São Paulo tem com as regiões da periferia um sentimento de identidade. A atividade é exercida por grupos compostos, em sua maioria, por jovens do sexo masculino. E a maior disputa é pelo reconhecimento dos pares. “Por cerca de um ano observei os escritos, acompanhei os pichadores por algumas vezes nas áreas centrais da cidade, bem como suas marcas nas periferias e até em outros municípios”, conta o geógrafo Pedro Rangel Filardo, que estudou o tema em sua dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

“Consultei a literatura e verifiquei que há diversos estudos sobre as pichações nas cidades, mas do ponto de vista sociológico, da estética, da semiótica e do direito, entre outros”, conta. “Não consegui encontrar nada relativo sob o ponto de vista espacial e também da paisagem urbana, ou seja, o que de fato o ser humano apreende com o que é visto na paisagem em relação a uma pichação”. Afinal, segundo Filardo, tais marcas (pichações) por vezes nem são percebidas por muitas pessoas nas cidades.

A dissertação A Pichação (tags) em São Paulo: dinâmica dos agentes e do espaço é um estudo empírico, com base em observações feitas pelo pesquisador mais precisamente no ano de 2013, e que teve a orientação da professora Yvonne Miriam Martha Mautner. Filardo conta que a forma de pichação mais disseminada e presente na capital paulista são as tags, ou assinaturas estilizadas. De acordo com o pesquisador, esta forma de pichação de traços retos, semelhante a um estilo gótico, é a que domina a cidade central e a periferia. “Em geral são feitas de forma rápida e simples, onde os pichadores utilizam rolos de pintura ou tinta spray”, detalha.

Respeito

Os pichadores reúnem-se semanalmente, como informa Filardo, preferencialmente nas áreas centrais da cidade. Ele conta que nestes encontros são trocadas assinaturas (tags) e planejadas a maioria das ações de pichação. “É um desafio constante, afinal a atividade é perigosa e considerada ilegal. Além de não ser bem vista por grande parte da população”.

Os principais alvos desses grupos, que agem preferencialmente nas madrugadas, são os viadutos, locais altos e de difícil acesso e imóveis desocupados. “Importante para os grupos é que as inscrições tenham o máximo de visibilidade e durabilidade e que figurem em áreas de maior movimento”.

A busca pelo respeito dentro do grupo de pichadores passa pela não utilização de espaços já inscritos. “Ou seja, dificilmente ocorre o que eles chamam de ‘atropelo’, que é a pichação feita sobre outra”, descreve o geógrafo, enfatizando que uma das principais regras seguidas pelos grupos é o lema “lealdade, humildade, procedimento”.

O fenômeno das pichações surgiu na década de 1960 nos Estados Unidos, ligado às disputas territoriais dos guetos e ao hip-hop. “Em São Paulo começou a tomar a sua característica formal principalmente no final da década de 1980, com a utilização do tag reto, ou pixo reto, como denominam os grupos”, explica Filardo.

Disputa visual e comunicação

Em seu período de observações, Filardo mapeou e percorreu um eixo entre áreas centrais e periféricas da cidade, compreendendo espaços desde as avenidas Rebouças e Consolação (no centro), até a avenida Vital Brasil (já na zona oeste da cidade), bem como áreas da periferia. As marcas nas paredes acabam se tornando uma comunicação fechada entre os grupos. “Além disso, percebi que há uma disputa pelo espaço visual da cidade. Os pichadores têm o espaço público como um suporte para suas assinaturas”, considera o geógrafo.

Ele lembra que há muitas formas de combate públicas e privadas ao fenômeno (como o uso de arte de rua para evitar as tags), e que a pichação é considerada um crime de baixo potencial ofensivo. “Assim como há o respeito entre os grupos em relação a desenhos prontos, os pichadores também não fazem inscrições sobre manifestações de arte de rua”, afirma o pesquisador. Segundo Filardo, poucas ações da administração pública chegaram a gerar algum resultado.

Antonio Carlos Quinto / Agência USP de Notícias

Mais informações: email pedrofilardo@gmail.com

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