Análise de árvores indica composição de poluente

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Biomonitoramento feito com amostras das cascas indica substâncias presentes nos poluentes atmosféricos

Cascas de árvores são utilizadas em pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) para monitorar substâncias presentes na poluição atmosférica, em especial nas emissões feitas por veículos. No estudo, a engenheira agrônoma Tiana Carla Lopes Moreira coletou amostras de 171 árvores no centro expandido de São Paulo e encontrou principalmente elementos químicos associados a emissões veiculares, como zinco, enxofre, cobre e ferro. O trabalho aponta que as cascas de árvores coletadas em vias expressas têm mais poluentes que as obtidas em vias de trânsito local.

“No estudo de biomonitoramento, o objetivo era avaliar se existem diferentes emissões de acordo com o tipo de via e se algo pode influenciar na emissão, como barreiras, entre outros fatores”, explica Tiana. Durante a pesquisa foram retiradas amostras das cascas mais superficiais das árvores. “Qualquer árvore pode ser utilizada, embora as mais adequadas sejam aquelas com cascas que se soltam com facilidade ou mais porosas, devido à facilidade de coleta e uso. Como em alguns locais é difícil encontrar muitas espécies, foi recolhido o que existia por ali”.

Ao todo, foram analisadas 171 árvores, distribuídas pelo centro expandido da cidade de São Paulo. O centro expandido é uma área da capital paulista localizada ao redor do centro histórico. Ela é delimitada pelo chamado minianel viário, composto pelas marginais Tietê e Pinheiros, mais as avenidas Salim Farah Maluf, Afonso d’Escragnolle Taunay, Bandeirantes, Juntas Provisórias, Presidente Tancredo Neves, Luís Inácio de Anhaia Melo e o Complexo Viário Maria Maluf.

Emissões veiculares

As cascas são transformadas em pó e depois em pastilhas para a análise pela técnica de espectrometria de fluorescência de raio-x, que identifica as substâncias presentes nas amostras. “Foram encontrados elementos químicos relacionados principalmente às emissões veiculares como zinco, enxofre, cobre e ferro”, destaca a agrônoma. “Foram coletadas as amostras de quatro espécies de árvores: tipuana, sibipiruna, quaresmeira e alfeneiro. Na pesquisa, elas não mostraram diferenças significativas nas concentrações dos elementos químicos mais importantes analisados no estudo.

O trabalho demonstra que as amostras de árvores obtidas em via de tráfego local possuem menor nível de poluentes que aquelas coletadas em vias expressas. “Em menores quantidades, foram encontradas substâncias que apontam outras fontes de poluentes além das emissões feitas por veículos”, afirma Tiana. “São elas o cimento, proveniente do desgaste de pavimento e construções, sal marinho e a queima de biomassa, no caso, etanol e madeira”.

De acordo com a agrônoma, a técnica pode ser utilizada para obtenção de dados de elementos químicos das emissões de poluentes. “No entanto, ela não permite obtenção de dados referentes a gases, assim como não fornece dados de série temporal, apenas a distribuição espacial”, observa. “A pesquisa indicou que as árvores, além de serem barreiras para a poluição do ar, também indicam o tipo de poluente que existe no local. Outros estudos serão necessários para demonstrar como a vegetação arbórea retém a poluição e quais são esses poluentes”.

A tese de doutorado “Biomonitoramento intra-urbano da poluição de origem veicular: utilização da casca de árvore na identificação de fontes de poluição atmosférica”, defendida no último dia 20 de janeiro, foi orientada pela professora Mitiko Saiki da FMUSP e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). O estudo teve a colaboração do professor Paulo Hilário Nascimento Saldiva, da FMUSP.

Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Mais informações: email tianaca@gmail.com

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