Pesquisador da Esalq recomenda preservação de áreas com predominância de bambu

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Júlio Bernardes/ Agência USP de Notícias

Na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, pesquisas mostram que áreas com predominância de bambu atingiram 30% da extensão de unidades de preservação da mata atlântica. Nesses locais, outras espécies vegetais tiveram menor densidade e maiores taxas de dano e mortalidade. Apesar de existirem indícios de expansão do bambu, o ecólogo Renato Augusto Ferreira de Lima, autor de um dos estudos, recomenda que a espécie seja mantida enquanto não houver dados científicos detalhados que possam fundamentar a decisão de realizar o manejo ou de fazer a preservação.

A pesquisa de Lima analisou a influência do bambu na estrutura e na dinâmica da floresta em uma área onde a espécie é  predominante. “A espécie estudada é a Guadua tagoara, mais conhecida como taquaruçu, que é nativa da mata atlântica, desde Santa Catarina, até a Bahia”, conta o ecólogo. A análise se concentrou numa área de dez hectares no Parque Estadual Carlos Botelho, Unidade de Conservação (UC) localizada no município de Sete Barras, no Vale do Ribeira (interior de São Paulo).

O pesquisador constatou que 30% da área analisada apresenta alta densidade de bambu lenhoso, que pode atingir até 18 metros de altura. “Posteriormente, um levantamento em toda a área do parque mostrou que a porcentagem de espaços dominados pela espécie é semelhante”, aponta Lima. O bambu não é classificado como árvore, apesar de possuir um corpo lenhoso, sendo considerado uma gramínea ou enquadrado numa categoria à parte.

A densidade, a mortalidade e o crescimento de espécies árboreas nos locais com predomínio do bambu foi comparada com a das regiões de floresta fechada. “A densidade de espécies é menor, com um número reduzido de espécies de grande porte e maior taxa de mortalidade”, observa o ecólogo. “A taxa de danos, que inclui estragos na copa e quebras de tronco e galhos, chega a ser seis vezes maior que em outras áreas de floresta”.

Densidade

As áreas com predomínio do bambu apresentam maior incidência de luz e são mais difíceis de serem percorridas, devido a densidade da espécie. “O estudo não verificou a composição total da área, mas é possível que haja espécies que não são encontradas em outras partes da mata”, diz Lima. “Quanto a fauna, há evidências de que a reprodução e a expansão populacional do bambu possa favorecer a alimentação de ratos, que são portadores do hantavírus, causador de doenças em seres humanos.”

De acordo com o ecólogo, um estudo realizado em outra unidade de conservação do Vale do Ribeira mostrou que entre 1962 e 2000, houve um aumento de 5% das áreas com alta dominância de bambu. “Entretanto, serão necessários novos estudos para verificar se esse crescimento é um efeito colateral da exploração humana ou se é apenas um processo natural da própria mata atlântica”.

Lima alerta que qualquer iniciativa de manejo visando reduzir a concentração de bambu é prematura. “Não existe uma avaliação sobre a composição dessas áreas, o que é essencial para se saber se há espécies que dependem do bambu”, destaca. “Da mesma forma, é preciso reunir informações sobre a fauna, que pode sofrer um impacto negativo com o corte. O conhecimento atual é ainda muito escasso para decidir se haverá manejo e de que forma será feito: corte, uso de herbicida ou introdução de predadores, entre outros métodos.”

A pesquisa faz parte da dissertação de mestrado de Renato Lima, orientada pelo professor Sergius Gandolfi, da Esalq. Atualmente, Lima é doutorando do Instituto de Biociências (IB) da USP. O estudo teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Projeto Biota.

Mais informações: (11) 6397-3974, com Renato Augusto Ferreira de Lima 

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