Radar Parlamentar desenvolvido na Poli facilita acesso a dados de votações

Ideia é permitir entendimento das informações sobre o legislativo disponibilizadas pelo governo | Foto: José Cruz /Agência Brasil

Um projeto em fase de desenvolvimento por um grupo de alunos da Escola Politécnica (Poli) da USP deverá facilitar o acesso e análise, por parte da população em geral, dos dados referentes às votações ocorridas entre os parlamentares brasileiros, seja em âmbito municipal ou federal.

Isto porque o grupo, chamado de PoliGNU, que tem por objetivo o desenvolvimento e divulgação da tecnologia e softwares livres, pretende aproveitar ao máximo a sanção da Lei de Acesso à Informação (n° 12527, de 18/11/2011). A Lei estabelece a obrigação do Poder Público de disponibilizar informações internas de suas “casas” à sociedade, como por exemplo os detalhes das votações realizadas pelos parlamentares.

Na avaliação do PoliGNU, porém, os dados disponíveis não permitem um fácil acesso ou um trabalho em outras plataformas e programas, o que limita o ângulo de avaliação do cidadão ao formato em que são divulgados.

Camaraws – o radar parlamentar

Visando avaliar a semelhança interpartidária no Congresso Nacional, o engenheiro eletricista formado pela Poli, Leonardo Leite, iniciou em janeiro o projeto com o nome de Camaraws – junção da palavra “Câmara” com a sigla ws, que significa web service. “Diferentemente de websites, que intermediam a comunicação entre o usuário e a máquina, o web service representa a comunicação automatizada entre sistemas, e desta forma o aplicativo se relaciona com os dados governamentais”, esclarece.

O projeto passou a atrair a atenção – um dos posts chegou a cerca de 2200 acessos – e comentários de internautas, como Saulo Trento, também graduado em Engenharia Elétrica na Poli, que ajudou a solucionar alguns problemas encontrados no processo e se tornou parte ativa do desenvolvimento do sistema. O Camaraws foi a principal inspiração para o desenvolvimento da ferramenta “Basômetro”, do jornal Estadão Online, cuja finalidade é “medir” o apoio dos deputados ao governo vigente.

Utilizando conceitos matemáticos, como vetores e álgebra linear, a equipe passou a ilustrar os resultados obtidos por meio de gráficos animados e expandir as aspirações do aplicativo. Apesar de o grupo não ter encontrado dificuldades nos contatos para busca de dados, os retornos não foram inteiramente satisfatórios: “o Congresso, por exemplo, disponibiliza informações referentes ao ano de 2003 para frente, mas de forma incompleta, o que prejudica a análise”, afirma Leite.

Foto: Divulgação

No caso da Câmara Municipal, “os dados estão mais completos, mas só foram mostrados os do 2° semestre de 2010 em diante, então não temos como saber a mudança no número de parlamentares de cada partido após outras eleições”, reclama, “além disso, ninguém afirma que a Casa se compromete a digitalizar e oferecer dados mais antigos, que poderiam, entre outras coisas, possibilitar a identificação de partidos mais ‘oportunistas’, que se aliam à base do Governo, não importa qual seja”.

No final de maio, o projeto teve seu nome alterado por meio de uma enquete proposta aos internautas, e agora é chamado de Radar Parlamentar, que segundo Haydée Svab, estudante de Engenharia Civil e também desenvolvedora, permite, primeiramente, “uma compreensão maior do público do que o anterior, que tinha uma sigla a ser explicada constantemente, e também que nos voltemos aos dados abertos por outras ‘casas’ ”. Além disso, membros do PoliGNU participam da primeira edição do Concurso Hackathon, promovido pela Câmara Municipal de São Paulo, que oferece a chance dos grupos de hackers da cidade facilitarem o acesso de suas informações pela população, exatamente a proposta da equipe.

Próximos passos

O Senado Federal deverá ser o próximo “alvo” do Radar Parlamentar, quando os dados estiverem disponíveis, mas esta não será a única novidade do site, segundo o PoliGNU. As primeiras ideias a serem incluídas como novas ferramentas do aplicativo, seriam funcionalidades mais específicas relacionadas aos políticos que representam os brasileiros. Por exemplo, a inclusão da identificação de quais partidos têm cargos nos governos, como ministério na alçada federal, e secretarias e subprefeituruas na alçada municipal, e se esses cargos, de alguma maneira, ‘influenciam’ na tendência de votação de cada partido, se posicionando contra ou a favor da situação.

Entre outras melhorias planejadas pelo grupo estão a filtragem dos resultados de cada votação de partido por tema e a identificação de gênero de cada parlamentar. Há mutos cenários que podem ser encontrados e melhor analisados com essas adições técnicas ao site. Como exemplo, Leite cita a votação do Código Florestal, em que o Partido Verde (PV), que tem maior ‘proximidade’ com o Governo atual, pode ter destoado dos votos da base governista por estes irem contra os princípios de defesa do ambiente do partido. Ou outras votações que tenham abordado direitos da mulher podem ter sido vistos de forma distinta entre parlamentares de ambos os gêneros. “A sociedade tem direito ao fácil acesso e entendimento desses aspectos, para criar a sua visão crítica a respeito da escolha dos representantes da nação” – completa o aluno.

Além do site do projeto, o PoliGNU tem um grupo aberto de discussão, através do qual recebe ideias, sugestões, críticas e até mesmo contato para a participação direta dos interessados. “Podemos desenvolver as ideias mais interessantes,  ou até mesmo convidar o responsável a se juntar a nós e melhorar o aplicativo”, diz Haydée Svab.