Aparelho com infravermelho criado no IFSC potencializa efeitos de exercícios físicos

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Já se sabe que nenhuma dieta ou tratamento estético podem ser tão benéficos à saúde quanto os exercícios físicos. Para o número crescente de sedentários – que no Brasil correspondem a 70% da população – essa pode não ser uma notícia muito boa. Mas e se houvesse uma maneira de potencializar o efeito destes exercícios, ficaria mais fácil tirar os preguiçosos do sofá? No Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP esta maneira já existe, no formato de um aparelho.

Tudo começou com uma preocupação sobre a prevenção das consequências do envelhecimento, por parte de Vanderlei Salvador Bagnato e Cristina Kurachi, docentes do IFSC, e da pesquisadora do Grupo de Óptica e Fotônica do IFSC, Fernanda Rossi Paolillo. Embora possa parecer de preocupação meramente estética, tais consequências podem ir muito além da beleza, incluindo declínio da função hormonal, neural, cardiovascular e respiratória, além da perda óssea e alterações na composição corporal, caracterizadas pela perda de massa, força e qualidade do músculo (sarcopenia) e aumento do percentual de gordura que, juntamente com desequilíbrio da taxa metabólica e o estado sedentário, podem aumentar a fadiga.

O resultado final da inquietação dos pesquisadores foi a criação de um aparelho capaz de potencializar os benefícios de exercícios físicos, consequentemente prevenindo e diminuindo as consequências do envelhecimento do corpo. O equipamento, que contém milhares de LEDs (diodos emissores de luz), foi desenvolvido no Laboratório de Apoio Tecnológico do Grupo de Óptica do IFSC, contando com a colaboração do Departamento de Fisioterapia da UFSCar, para realização do estudo clínico.

Desenvolvimento

Arranjos de LEDs, que emitem infravermelhos, foram projetados para serem utilizados durante o exercício físico e testados, diretamente, em seres humanos. “Antes de ser usado, o aparelho passou pela aprovação do Ministério da Saúde e pelos Comitês de Ética nacional e local. Só depois disso é que começamos a recrutar pacientes para testá-lo”, conta Fernanda.

Em seguida aos ajustes devidos, inclusive no que se refere à parte burocrática para o uso do equipamento, durante três meses, 45 voluntárias – mulheres na pós-menopausa, entre 45 e 50 anos – iniciaram os testes e, após duas semanas, já puderam sentir os resultados.

Cristina Kurachi (esq.) e Fernanda Paolillo (dir.)

“Estas voluntárias foram avaliadas até o período de um ano. Trabalhamos com análises sofisticadas para observar os efeitos e constatamos que houve melhora da força muscular, atenuação de perda de massa óssea, o que diminui as chances de osteoporose, e redução da fadiga. Fizemos teste de esforço na esteira ergométrica, com eletrocardiograma, e observamos, também, melhora na capacidade aeróbia”, conta Fernanda.

“Já é muito bem sabido que os exercícios físicos trazem todos esses benefícios, mas conseguimos potencializar e acelerar esses efeitos, com a ajuda do novo equipamento”.

E as vantagens não param por aí. Além do que foi citado acima, a técnica de termografia apontou o aumento da temperatura da pele, o que indica vasodilatação e aumento da circulação sanguínea, trazendo uma melhora estética dos tecidos atingidos.

Isso significa que a celulite, uma das maiores inimigas das mulheres, também foi reduzida. “Por aumentar a circulação nas regiões afetadas, os tecidos apresentaram melhoras estéticas comprovadas, com a diminuição da celulite nas áreas observadas. Notamos, também, o aumento da síntese de colágeno, proteína responsável, entre outras coisas, pela firmeza da pele. Em razão desse aumento, a pele das voluntárias rejuvenesceu”, afirma Fernanda.

Embora em princípio testado somente em mulheres, pessoas de ambos os sexos e de diferentes idades também podem usufruir dos efeitos positivos do novo aparelho. “Já existem estudos que comprovam a eficácia do equipamento infravermelho em pessoas jovens, que tiveram hipertrofia muscular. O infravermelho associado à musculação também traz bons resultados”, afirma Cristina Kurachi.

Resultados comprovados

Para efeitos de comparação, as voluntárias que participaram dos testes iniciais foram divididas em três grupos: o primeiro com pacientes sedentárias, o segundo com pacientes que se exercitaram na esteira ergométrica e o terceiro com exercícios na esteira associados ao infravermelho.

À esquerda, voluntária antes do período de tratamento,
à direta, após.

Além da melhora do desempenho físico, com o aumento da força muscular e da capacidade aeróbia, outros benefícios também foram verificados. Em relação ao nível de colesterol no organismo, o terceiro grupo apresentou uma melhora 20% maior em relação ao segundo. Outro dado registrado indica a atenuação de perda de massa óssea em 50% nas pacientes do terceiro grupo. “O segundo grupo também teve melhoras e resultados positivos, mas foram inferiores àqueles observados nas pacientes que fizeram os exercícios associados ao infravermelho”, explica Fernanda.

Fernanda Paolillo, que concluiu seu doutorado  em biotecnologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e inicia o pós-doutorado, realizará novos testes para explorar melhor os efeitos dos LEDs infravermelhos na reabilitação, no desempenho esportivo e na estética corporal.

Quando a indústria entra em jogo?

De acordo com a professora Cristina, a patente do produto já foi solicitada e está prestes a ser concedida, mas os preços de venda do aparelho ainda não foram estimados. “O interesse de empresas em construir o aparelho só virá depois de termos demonstrado, efetivamente, os diversos resultados atingidos com o equipamento”, conta.

Fernanda diz que muitas academias de ginástica e clínicas de estética já mostraram enorme interesse em fornecer um espaço físico para alocar o aparelho e permitir testes com outras voluntárias. “Temos muitas propostas e estamos negociando para ver qual estabelecimento oferece um melhor ambiente, adequado aos testes. A ideia é que, nessa segunda fase, qualquer pessoa possa participar, não importando o sexo ou idade”.

No que se refere à metodologia, protocolo e análise de resultados da pesquisa, parte que cabe à Universidade, muitos passos já foram dados em direção à conclusão dos estudos. Notícia muito boa para as academias, mas talvez nem tanto aos sedentários de carteirinha, que terão menos desculpas para não fazer os essenciais exercícios físicos.

Como funciona?
O equipamento é formado por duas placas com LEDs que emitem radiação infravermelha. Nos testes, ele foi posicionado ao lado de uma esteira ergométrica, à altura de coxas e glúteos. No decorrer dos exercícios, realizados durante 45 minutos, duas vezes por semana, raios infravermelhos foram irradiados diretamente no corpo da voluntária.

Da Assessoria de Comunicação do Instituto de Física de São Carlos da USP

Mais informações: email comunica@sc.usp.br

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