Pesquisa do IP revela que adultos que ainda moram com os pais se sentem incomodados

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João Ortega / Agência USP de Notícias

Para pessoas adultas que ainda vivem com seus pais, o aspecto financeiro e a dinâmica de cada família, seja pela cultura e tradição, ou pela necessidade de cuidar dos pais, são questões que dificultam na definição de uma vida adulta. “Estas pessoas carregam um sentimento de fracasso, mas não têm as ferramentas para sair de casa”, relata a psicóloga Renata do Nascimento Vieira Munhoz. Em estudo realizado no Instituto de Psicologia (IP) da USP, ela analisou sete pessoas, sendo cinco mulheres e dois homens, entre 26 e 37 anos. “Muitos podem pensar que morar com os pais é uma situação confortável. Para quebrar este senso comum, procurei analisar como realmente se sente uma pessoa nesta situação”, descreve.

As pessoas envolvidas no estudo, em sua maioria, não se veem com estabilidade suficiente para morar sem auxílio dos pais. Dois deles, inclusive, moraram em outras casas, mas retornaram por conta desse fator.

De outro lado, em relação destaca-se a falta de ferramentas psicológicas, questão ligada à dinâmica de cada família. “Além  de situações como a solidão ou outros fatores, os filhos não se sentem aptos a saírem do lar”, afirma Renata.

Em seu estudo, ela percebeu que há uma dificuldade em definir a vida adulta. A questão da independência, que não foi atingida por eles, parece ser central nessa definição e eles não conseguem se reconhecer plenamente como adultos. “Me sentia uma formiguinha perto de elefantes”, relatou uma das envolvidas na pesquisa.

O estudo A pertença estendida de adultos na família de origem é a dissertação de mestrado da psicóloga e foi orientado pela professora Belinda Piltcher Haber Mandelbaum. Renata ressalta que a pesquisa não pretende encontrar uma causa geral para esses casos, nem julgar se a estadia prolongada na casa dos pais é algo saudável ou não.

Famílias

“Não é agradável para os filhos estarem ali, mas eles não se sentem autorizados a sair”, conta. Ela notou que ao mesmo tempo em que os pais desejam que seus filhos saiam, paradoxalmente eles desacreditam na autonomia deles. Alguns dos mesmos conflitos que a amostra tinha na infância ainda permanece na fase adulta.

Em um dos casos, a cultura e a tradição familiar são relevantes. Por ser de descendência italiana, os costumes da família dizem que os filhos devem assumir a casa na ausência dos pais, e isso se tornou um empecilho para a saída de um dos que participaram do estudo.

Em outro, existe uma inversão nos papéis em relação a maioria dos casos. A filha tem o papel de sustentar financeiramente a mãe. Além disso, existe a questão emocional: a pessoa se sentiria culpada em deixar a mãe morando sozinha.

As situações de cada uma das pessoas avaliadas na pesquisa são variadas. Uma delas casou por cinco anos e permaneceu durante todo esse período na casa da família de origem. A psicóloga vê os homens analisados como os mais dependentes dos pais em diversos sentidos.

O estudo foi idealizado após a pesquisadora, que dá aula na pós-graduação em Psicopedagogia, notar que vários de seus estudantes moravam com os pais. Quando a ideia de pesquisa foi aprovada, ela evidenciou alguns temas para a entrevista visando estabelecer um perfil das pessoas envolvidas no estudo para destacar os motivos e sentidos que eles apontavam sobre o permanecer na casa da família. Depois disso, sete entrevistas foram realizadas com pessoas que moravam na casa da família de origem.

Mais informações: (11) 9934-9175, email renatamunhoz@hotmail.com, com a pesquisadora Renata do Nascimento Vieira Munhoz 

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