Em busca de vacina para deter o câncer, ICB pesquisa células dendríticas

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Diferente da maioria dos estudantes de medicina, que sonham em atuar em hospitais e clínicas, o médico José Alexandre Barbuto, atualmente professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, entrou na faculdade com interesse em pesquisa, buscando contribuir com a sociedade mesmo sem contato direto com pacientes. Sua área de atuação é a imunologia,  campo que, segundo o professor, trata de um ”sistema bonito, que integra muitos outros”.

Nos laboratórios do ICB e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) da USP, Barbuto pesquisa insistentemente vacinas anti-tumorais. Em suas pesquisas, a chave para o descobrimento da cura para as diferentes formas do câncer está nas células dendríticas – componentes do sistema imunológico responsáveis principalmente pela identificação e captura de agentes estranhos presentes no corpo humano.

Em uma pessoa com câncer, essa célula dendrítica não reconhece o tumor como algo estranho ao corpo e portanto, não o combate. O princípio da vacina , segundo o professor, “é avisar ao sistema que aquilo é algo ruim para o corpo e que o sistema deve entrar na briga” explica, de maneira didática.

A vacina

Ao contrário do que o nome sugere, a vacina não é feita para que pessoas saudáveis se protejam do câncer. “O nome confunde muita gente, mas a vacina não é só preventiva, ela pode ser terapêutica também, servir como alternativa de tratamento a determinada doença”, afirma o pesquisador.

A vacina desenvolvida por Barbuto é feita em doses únicas, específicas para cada paciente, já que, como alerta o professor, “cada câncer é único”. São retiradas células dendríticas do sangue do paciente, que carregam um marcador do tumor, e fundidas à base de choques com outras células de doadores sanguíneos saudáveis.

Essa forma de tratamento é usada para dois tipos de câncer: o mais agressivo de todos, que é o melanoma (câncer de pele) e o câncer de rim, normalmente em pacientes em estágio terminal. Na maioria dos pacientes, o tumor parou de crescer, o que Barbuto considera como um “super resultado”. Nestes pacientes terminais, a estimativa de vida mais que dobrou.

Com o avanço das pesquisas, o professor espera que em breve ela possa ser utilizada em escala maior e que ajude não só pacientes em estágio terminal, mas também em início de tratamento para torná-lo menos sofrível e doloroso.

Neuroblastoma

Equipe do professor Barbuto | Foto: Divulgação

Um outro tipo de câncer que há pouco tempo está sendo estudado pelo professor é o neuroblastoma, comum em crianças, cujo desenvolvimento é um pouco diferente dos demais. Segundo Barbuto, “é um câncer que as vezes ‘sara’ sozinho, mas não há cura definitiva. Opera-se, transplanta-se, e ele pode voltar”.

A vacina é feita do mesmo modo já descrito e é aplicada logo após a operação, sem dar tempo para que o tumor volte a se desenvolver.

Como seu principal resultado é interromper o crescimento do câncer, o método tem se mostrado eficaz. No entanto, Barbuto lembra que “ainda não é possível comprovar os resultados, já que o método e a pesquisa são bastante recentes. É preciso esperar mais algum tempo para que tenhamos respostas mais confiáveis”, afirma.

Brasileiros

Estudioso do sistema imunológico desde os tempos de graduação, Barbuto aprendeu o método de fusão das células dendríticas na Alemanha, um dos países líderes nesse tipo de pesquisa. Segundo o professor, existem milhares de laboratórios desenvolvendo pesquisas sobre o assunto, cada um com um método diferente, inclusive alguns poucos no Brasil. No entanto, há pouco destaque dos trabalhos brasileiros no cenário mundial, o que sugere um campo bastante amplo à pesquisa, já que diversos setores da sociedade investem altas quantias no combate ao câncer.

Nas pesquisas referentes a células dendríticas, seu Laboratório de Imunologia no ICB é líder e referência nacional. Em breve, uma de suas orientadas de mestrado irá defender uma dissertação onde tenta modular a célula dendrítica, dando mais um passo na direção de tentar entender o funcionamento desta célula tão peculiar, e que, no trabalho de Barbuto, “é o pulo do gato” nas pesquisas com câncer.