Cidades sertanejas foram isoladas por latifundiários, mostra estudo da FAU

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Mariana Melo/Agência USP de Notícias

O interesse dos latifundiários em manter as formações urbanas dispersas e desestimuladas, em detrimento às orientações da metrópole, contribuíram para impedir o adensamento da malha urbana no sertão nordestino nos séculos XVII e XIX. Além disso, as relações com Portugal, como o estímulo à formação de estradas durante o reinado de D. Pedro II, almejando dinamizar as trocas comerciais, refletiram na formação dos aglomerados urbanos e definiram a forma de certas vilas sertanejas.

Estes dados são da dissertação de mestrado do arquiteto e urbanista Esdras Arraes, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. O trabalho teve orientação do professor Luciano Migliaccio, da FAU, e considerou aspectos arquitetônicos, econômicos, históricos e sociais do sertão nordestino. O arquiteto viajou, entre janeiro e abril de 2010 e fevereiro de 2011, para vilas e aldeamentos missioneiros do Nordeste e estudou as formas da economia e as relações pessoais do sertão, submetidas à interferência da pecuária. Sua pesquisa passou pelas cidades de Oeiras e Jerumenha (Piauí); Icó, Crato e Barbalha (Ceará); e Ouricuri e Exu (Pernambuco),  entre outros lugares. Essas cidades possuem, ainda, alguma presença da arquitetura do Brasil Colonial e Imperial.

“Pensar con los ojos”

O método empregado na pesquisa, chamado “Pensar con Los Ojos” (pensar com os olhos), do crítico mexicano Damián Bayón, propõe que o historiador entre em contato com a realidade que estuda, de forma a assumi-la para poder entendê-la. Uma das estratégias para construir o lado empírico desta pesquisa foi, então, observar velhas fotografias das povoações, sentir os espaços públicos objetos do estudo e conceituar sobre o contemplado. “Por isso fiz um álbum com 1.400 fotografias, 500 delas tiradas por mim e as 900 restantes provenientes da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), do Arquivo Histórico da Arquidiocese do Crato, do site da Biblioteca Nacional, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do site da Biblioteca Nacional da França” diz Arraes.

O enfoque interdisciplinar do tema fez com que Arraes estudasse os grandes historiadores da economia brasileira, como Capistrano de Abreu. Além disso, investigou fontes primárias, como cartas régias, ofícios, autos, alvarás, comunicações entre câmaras municipais e a metrópole, além de mapas e plantas urbanas, providenciados pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e pela Cátedra Jaime Cortesão, também da USP.

Arraes procurou comparar a colonização feita por intermédio da expansão pecuária (“curral de reses”) e a consequente formação de aldeamentos missioneiros para atendimento dos interesses da Igreja (“currais de alma”). O termo curral, para ele, também lembra o “adestramento” civilizatório ao qual a população da época, principalmente os índios, estavam submetidos. A formação de aglomerados urbanos, neste caso, buscava doutrinação religiosa e também social, esta última numa tentativa de substituir a catequização dos jesuítas pelos valores seculares do estado português, conforme o ideal iluminista do Marques de Pombal, secretário de Estado do Reino de Portugal durante o reinado de D. José I (1750-1777).

“Como sertanejo, percebi que muitos estudos não focalizam o interior nordestino. O consenso de que o sertão é isolado é um equívoco causado pelo desconhecimento”, alega o pesquisador. O método utilizado em seu trabalho, “Conhecer para abrir os olhos”, se aplica, também, à desmistificação do isolamento sertanejo. “No sertão, as fronteiras são poucas. O ‘oxente’ de Pernambuco é o mesmo da Bahia e do Ceará.”

Mais informações: email esdrasarraes@usp.br com Esdras Arraes 

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