Na USP, intelectuais também discutem futebol

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A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFCLH) e a Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP vêm promovendo estudos sobre o esporte mais popular do Brasil, o futebol. Com um tema que pode ser considerado “banal” por parte do meio acadêmico, o foco sociocultural utilizado pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas (Ludens), da FFLCH e também pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre o Futebol (GIEF) da EEFE representa uma nova luz lançada sobre aspectos usualmente pouco considerados da modalidade.

O coordenador do Ludens, Flávio de Campos, conta que, entre 2002 e 2003, decidiu montar uma disciplina de pós-graduação em parceria com o professor Hilario Franco Júnior, chamada de História Sociocultural do Futebol.

“Apesar de pensarmos que não se daria grande importância ao curso, por tratar de futebol, que é academicamente pouco valorizado, ficamos surpresos com a demanda.”

Atualmente, são cerca de 20 matriculados. No ano de 2010, em parceria com o Museu do Futebol e o Departamento de Antropologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, foi montada a primeira edição do Simpósio de Estudos sobre Futebol, que teve como objetivo reunir, analisar e debater as publicações e materiais acadêmicos em geral a respeito do tema.

Futebol e comportamento

Seguindo o objetivo do projeto, o Ludens aborda diferentes modalidades, tendo projetos voltados para outros esportes e até mesmo para jogos eletrônicos, com focos em momentos temporais específicos. Existem atualmente cerca de nove projetos coletivos interdisciplinares em fase de desenvolvimento pelo grupo. “Embora muitos olhos estarem se voltando para nossos esportes só agora, que se trata de uma época de preparação para a Copa do Mundo, em 2014, e para as Olimpíadas, no Rio de Janeiro, em 2016, já venho planejando e trabalhando neste tipo de pesquisa há mais ou menos dez anos”, explica Flavio.

O professor destaca o projeto “Brasil na Arquibancada”, em que volta as atenções para um dos elementos mais importantes do futebol: o torcedor. O objeto de estudo deveria tratar da diversidade de culturas presentes no Campeonato Brasileiro da modalidade, mas houve dificuldades. “A Série A do torneio é dominada pelos clubes do eixo Rio-São Paulo, com poucas contribuições do Sul e menos ainda do Nordeste ou Centro-Oeste do país”, aponta ele, que por esta razão transferiu o foco da pesquisa para as Séries B e C, nas quais se verifica um maior equilíbrio entre as regiões brasileiras representadas.

O objetivo é comparecer aos jogos nas diferentes regiões e registrar por meio de textos, fotos e vídeos, não os fatos ocorridos dentro de campo, mas o comportamento dos torcedores, através de um olhar de viés antropológico.

O estudo tem indicado diferentes fatores a serem analisados. “Existem as influências regionais nos cantos das torcidas, por exemplo, mas também podemos verificar a relação entre clube, torcedor e municipalidade, rivalidades, e assim por diante”, completa Flavio. Dentro das finalidades da pesquisa, está a proposta de políticas públicas para a melhoria da prática e acompanhamento do esporte no país.

Trajetórias olímpicas

Estas propostas também são buscadas pelo GIEF, que diferentemente do que ocorre normalmente com grupos de pesquisa, não foi proposto por um docente e aderido pelos alunos, como conta a coordenadora, a professora Kátia Rubio:

“O grupo é autogestionável. Os alunos se uniram, pensaram nos projetos a serem desenvolvidos e me convidaram a orientá-los.”

A pesquisadora segue a linha de pesquisa do estudo sociocultural do futebol há cerca de 15 anos, e atualmente tem um campo de estudo mais abragente. “Naturalmente discutimos o que foi e é o futebol para o cotidiano do brasileiro, mas procuramos olhares diferentes para este e outros assuntos”.

O maior projeto em desenvolvimento pelo GIEF no momento é voltado para os Jogos Olímpicos, cuja 30ª edição será disputada entre 27 de julho e 12 de agosto, em Londres (Inglaterra). Kátia afirma que estão sendo realizadas pesquisas minuciosas sobre as vidas e carreiras de atletas brasileiros que tenham participado de qualquer edição anterior das Olimpíadas (os atletas classificados para este ano não farão parte do estudo).

“Os atletas que representaram o Brasil em um evento desta magnitude merecem lugar de destaque na história do país, considerando as dificuldades pelas quais eles passam, inclusive para deixarem a carreira de esportista, quando caem no ostracismo”, afirma Kátia. Ela também aponta que muitos desses ‘ex-ídolos’ nacionais ou já faleceram ou ainda estão abandonados em asilos e abrigos, sem glórias, sem reconhecimento e sem apoio familiar.

Kátia conta também que os resultados das pesquisas do GIEF não ficarão distantes do público. “A reunião desses dados completos das vidas dos atletas e ex-atletas olímpicos brasileiros [até  2008,  foram 1672 representantes] têm a finalidade, para 2015, do lançamento de uma Enciclopédia, que contará estas histórias em detalhes, em forma de verbetes.”

Além disso, a longo prazo, planeja a inauguração de um Centro de Memória Olímpica na USP, “instituição que tem obrigação de reconhecer e trazer ao conhecimento do público a riqueza destas trajetórias”, completa a professora.

Muitos dos que já contaram suas vidas procuraram voluntariante o GIEF. Mas ainda há atletas olímpicos sobre os quais não há informações disponíveis, nem de seus familiares. . Caso alguém tenha informações de um ou mais desses atletas, pode entrar em contato com o grupo. O email de do GIEF é o cesc.eefe@usp.br. 

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