FCF pesquisa fármacos contra doenças “de pouco interesse comercial”

Danilo Bueno, especial para o USP Online

Países subdesenvolvidos são os que mais sofrem com a inexistência de medicamentos para suas doenças endêmicas | Foto: Wikimedia

A publicidade diária, dentro e fora das drogarias, nos lembra que o mercado está inundado de medicamentos contra gripe, dor de cabeça, azia e outros males mais comuns. No entanto, o dinamismo do mercado farmacêutico e o ritmo da pesquisa estão longe de ser os mesmos para todas as classes de medicamentos. Isso porque o interesse da pesquisa privada está intimamente relacionado ao poder de compra dos consumidores.

Assim, doenças como malária, tuberculose, esquistossomose (“barriga-d’água”), leishmaniose e hanseníase (“lepra”), entre outras, que atingem milhões de pessoas nos países subdesenvolvidos, acabam ficando em segundo plano em termos de estudos. Como explica a professora Elizabeth Igne Ferreira, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP,

“Por ocorrerem geralmente nas populações mais pobres e, em geral, não despertarem o interesse para a produção de medicamentos, estas doenças são conhecidas como ‘negligenciadas’ ”.

É o caso da doença de Chagas, que atinge cerca de 10 milhões de pessoas, de acordo com estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), principalmente na América Latina e Caribe. Apesar de sua descoberta ter completado 100 anos em 2009, a doença é ainda considerada sem cura. Os tratamentos existentes têm bons resultados quando aplicados no início da doença, mas são pouco eficazes na fase crônica.

Universidade

Rede para combater doenças negligenciadas existe na USP desde 2009 | Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Para reunir esforços na busca de soluções no combate às doenças negligenciadas foi criada na USP, em 2009, uma rede, que incluía este tema entre outros de interesse nacional. O objetivo era reunir os pesquisadores da Universidade que já trabalhavam com assuntos relacionados em um plano comum de ação, permitindo um maior intercâmbio de conhecimento e colaboração entre as unidades acadêmicas empenhadas em estratégias de combate às doenças negligenciadas.

A professora Elizabeth participou da criação desta rede, que chegou a reunir ao todo 100 pesquisadores da USP, nas várias áreas da ciência em torno do tema. A iniciativa possibilitou aos cientistas conhecerem o que estava sendo pesquisado até então, permitindo melhor articulação entre as pesquisas com temas conexos.

Segundo a docente, durante a sua atuação na coordenação do módulo de Fármacos e Medicamentos da rede, junto com pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, foi possível perceber que a alcunha de “negligenciadas” não era assim tão correta no que se referia à Universidade. De acordo com ela, estas doenças são pesquisadas na USP sob diversos ângulos tais como epidemiologia, diagnóstico, patogenia, vacinas, fármacos e medicamentos, entre outros.

Chagas e leishmaniose

Barbeiro, vetor da doença de Chagas | Foto: Wikimedia

Nos laboratórios da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, a professora Elizabeth e sua equipe se empenham em encontrar moléculas capazes de interromper o ciclo de vida dos agentes que causam várias doenças consideradas negligenciadas.

Uma das estratégias é, a partir de bibliotecas de estruturas químicas, selecionar as mais promissoras. Uma vez escolhidas, os pesquisadores procuram aumentar a eficácia delas, de modo a facilitar o combate ao agente. Outra ação consiste em aprimorar a atividade por meio da ligação a outras substâncias que têm a característica de transportá-las para o local onde produzem seu efeito.

Para isso, não basta conhecer os agentes causadores, mas é importante também ter uma boa noção do funcionamento do corpo humano, produzindo assim fármacos que não causem mal às pessoas. “Buscamos atacar alvos moleculares que não existam no hospedeiro”, exemplifica a professora. A procura de moléculas que atuam apenas no organismo do parasita evita efeitos colaterais que poderiam inviabilizar seu uso em seres humanos.

No caso da doença de Chagas, os pesquisadores vão atrás de candidatos a fármacos capazes de atuar na forma intracelular do parasita, que é a responsável pela fase crônica da doença.

O protozoário Leishmania donovani é o causador da leishmaniose | Foto: Wikimedia

Já no caso da leishmaniose, o tratamento é ainda mais complicado. O parasita ataca principalmente os macrófagos, células que fazem parte do nosso sistema imunológico. Sendo imune aos agentes químicos produzidos por nossas células de defesa, as leishmanias são englobadas pela célula, que acaba morrendo durante o processo de reprodução do parasita. Ao prejudicar justamente as células responsáveis por atacar os corpos estranhos que invadem do organismo, o combate contra o parasita acaba sendo dificultado.

Levando em conta o ciclo biológico do parasita, os pesquisadores da FCF buscam desenvolver moléculas capazes de entrar no macrófago, para atingir o parasita no local onde ele se reproduz. De acordo com a pesquisadora, ainda não há uma vacina capaz de impedir a contaminação de humanos, mas já existe uma, desenvolvida no Brasil, que reduz a contaminação dos cães. “Isso é importante, já que os cães são reservatórios dos parasitas causadores da doença”, explica.

Processo longo

De acordo com a professora, uma das maiores dificuldades em sua área de pesquisa é o longo tempo que separa o início da seleção de uma molécula e a sua aplicação prática em um medicamento. “Há algumas moléculas promissoras, mas o caminho desde quando é encontrada, até o momento em que chega ao mercado pode levar até 15 anos”, afirma ela. Esse é um dos motivos pelos quais é importante buscar parcerias entre a universidade e as indústrias farmacêuticas.

“Nós precisamos das indústrias farmacêuticas para que a pesquisa desenvolvida na universidade chegue à sociedade no futuro.”

Outro problema é que grande parte também não encontra viabilidade. Os pesquisadores estimam que de 5 a 10 mil moléculas estudadas, apenas uma acaba gerando um novo fármaco no final do processo. E o custo disso é altíssimo: calcula-se em 1,3 bilhões de dólares o custo para a entrada de um novo medicamento no mercado.

Parceria

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A expansão destas doenças para além dos limites dos países subdesenvolvidos, bem como o aumento do investimento governamental na assistência médica nos países emergentes como o Brasil, têm instigado um interesse maior das indústrias por este tipo de medicamento. “Este paradigma das doenças negligenciadas está mudando”, explica a professora Elizabeth. “A indústria internacional está se interessando cada vez mais por essa classe de medicamentos e busca na Universidade parcerias que acabam sendo importantes para os dois lados”, explica.

De acordo com a pesquisadora, existe um importante papel de troca de conhecimentos. “As parcerias são importantes para que possamos conhecer o modo de pensar da indústria”, explica. Ela afirma que essa relação é ainda mais benéfica quando há um diálogo constante entre as duas partes:

“Não é simplesmente ‘eu te dou o dinheiro e depois vejo o que você fez’, deve haver compromisso e relacionamento científico estreito entre os parceiros”.

O apoio do setor empresarial nessa área é importante para que a Universidade cumpra seu papel de produzir pesquisa de excelência, “abrindo os caminhos da ciência para o desenvolvimento de novas soluções que possam ser aplicadas na sociedade”. E para Elizabeth, é exatamente isso que a USP faz, ciência de excelência -  o que justifica sua boa colocação nos rankings mundiais.