Uso de energia por aranhas de teia tem padrão diário similar, revela pesquisa do IB

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Sandra O. Monteiro / Agência USP de Notícias

A Bioenergética procura estudar o quanto de energia é gasto no dia-a-dia em tarefas como respirar, comer e se movimentar. Muitas pesquisas são realizadas a respeito dos padrões bioenergéticos de vertebrados, pouco se sabe, no entanto, sobre as aranhas. Em sua tese de doutorado defendida no Instituto de Biociências (IB) da USP, a bióloga Tatiana Hideko Kawamoto constatou que a quantidade de energia utilizada pelas aranhas de teia seguem o mesmo valor de padrão diário. A pesquisa buscou verificar a existência de padrões de gastos de energia associados aos hábitos de vida de aranhas de teia. “Apesar de corresponderem ao sétimo maior grupo de animais terrestres em diversidade [42.473 espécies catalogadas, até o momento] pouco é estudado sobre o funcionamento do organismo ou mesmo sobre as adaptações das aranhas quanto à economia de energia”. O estudo, no entanto, é apenas o início de uma possível nova teoria que pretende comprovar a evolução dos aracnídeos a partir de valores do padrão energético.

A metodologia utilizada teve como ponto de partida o princípio de Kroghs em que há a escolha de um animal-modelo com as características que se deseja estudar bem definidas. Este animal serve de base para comparações mais amplas com outro grupo de animais. Para o estudo, foram escolhidos dois grupos: o das aranhas marrom como animal-modelo e o das aranhas de teia orbiculares. “São grupos semelhantes em forma e tamanho, o que facilita a associação do gasto energético e dos hábitos de vida”. Ao todo foram analisados 201 perfis de gasto energético, 169 de grupos diversos das aranhas de teia orbicular e 38 de aranhas marrom.

A fim de medir a variação do uso de energia pelos animais durante o dia (24 horas), a bióloga fez uso da Respirometria Intermitente, mais apropriada para obter dados de animais com baixo consumo de oxigênio. Um exemplo cotidiano de respirometria é o realizado por desportistas. Enquanto o atleta corre, usa uma máscara que mede a quantidade de oxigênio consumido e de gás carbônico produzido. “A partir dos dados coletados é possível obter por meio de cálculos os valores de energia utilizada pelo atleta”, diz.

Da mesma forma, no estudo a respirometria auxiliou na análise dos gases produzidos e consumidos pelos aracnídeos. “No caso das aranhas foi utilizado um recipiente cilíndrico vedado, de 80 mililitros (mL) de volume, denominado câmara respirométrica”. A câmara fica recoberta por papel de filtro umedecido para manter a umidade e, em ambas as extremidades, estão conectadas válvulas que controlam quando e quanto ar passa pela câmera.

Por ser uma técnica bastante sensível, “é importante evitar efeitos de manipulação que possam produzir qualquer alteração na rotina do animal”. Por isso, após ser posta dentro da câmara, a aranha fica confinada por uma hora. Depois dese tempo é adicionado ar do ambiente (externo) por meio de uma das válvulas e a câmara é mantida fechada por mais uma hora. Este intervalo é necessário para que “a aranha se adapte ao novo ambiente e que os resultados não saiam alterados devido ao manuseio ou à agitação dela”.

As medições dos gases ocorreram durante cinco dias ininterruptos. De hora em hora, o ar da câmara era renovado, empurrando o ar já existente para uma das válvulas. “A troca de ar era feita em uma velocidade baixa (150 mL/min) para não afetar o animal. O ar que saía, era empurrado para filtros que eliminavam a umidade e o gás carbônico e posteriormente encaminhado para um sensor que registrava o consumo de oxigênio”.

Fisiologia

Uma outra conclusão da bióloga foi que, embora a fisiologia, da qual a bioenergética faz parte, seja uma fonte de informação importante para outras áreas da biologia, muitos pesquisadores a subutilizam ou utilizam de maneira equivocada evidenciando a necessidade de um intercâmbio interdisciplinar maior entre especialistas. A ecologia, por exemplo, é uma área que tem usado cada vez mais informações fisiológicas, procurando traçar cenários possíveis para os efeitos do aquecimento global. “Contudo usar as categorias fisiológicas sem compreender completamente os mecanismos podem levar a conclusões ingênuas sobre os ajustes que os animais podem realizar em diferentes situações de mudança”.

A intenção inicial do doutorado era provar uma possível nova teoria de evolução. Tatiana explica que a ideia primária era comprovar a relação entre o padrão energético e a evolução, neste caso, de aranhas de teia orbicular. “As aranhas mais antigas na escala evolutiva gastam mais energia do que as mais novas para confeccionar teias em um mesmo formato, mas com materiais diferentes. E a questão principal é o porquê desta mudança de comportamento se não há alteração do valor do padrão energético”.

Mais informações: email th.kawamoto@gmail.com 

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