Encontro na ECA discute como redes digitais transformam processos criativos

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Chegando à décima edição, o Acta Media – Simpósio Internacional de Artemídia e Cultura Digital  reúne especialistas que, durante 10 dias, discutirão como as redes digitais estão interagindo e modificando os processos criativos no mundo contemporâneo.

De 16 a 31 de agosto, pesquisadores, artistas e interessados participarão de uma série de encontros que envolvem mesas-redondas, oficinas e apresentações musicais. O simpósio será realizado na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis, no estúdio de Multimedia da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e no Instituto Cervantes de São Paulo.

Debatendo novas mídias e criação desde 2002, o Acta Media deste ano tem como tema central A Emergência do Reticular. “Está surgindo uma nova maneira de criar, uma que permite a criação coletiva”, revela Artur Matuck, professor da ECA e coordenador do evento. Segundo ele, o mote do ‘reticular’ se refere essencialmente à ascensão das redes num mundo cada vez mais interconectado.

Para a professora Eunice Maria da Silva, membro do grupo Centro de Pesquisas em Linguagens Digitais (Colabor) e na organização do Acta Media, o objetivo é entender “como a cultura digital interfere com processos criativos, artísticos e sociais”.

Ambos os professores concordam que, na sociedade atual, as redes permitem que os processos não sejam mais tão autoritários e, portanto, subvertam o conceito moderno que possuímos sobre direitos autorais. “Queremos questionar essa questão dos direitos autorais nesse contexto”, pontua Eunice.

No coração do encontro, os 31 palestrantes que debaterão música, tecnologia, meio ambiente e política têm como alvo comum a discussão dos processos pelos quais a criação se torna colaborativa, transindividual – “que vai além do indivíduo”, esclarece o professor,  alterando assim a experiência social e cultural de todos ao seu redor.

É nessa tentativa de extrapolar os limites do individual que o Acta Media quer somar novas experiências em uma sociedade envolvida num processo de transformação tão marcante hoje quanto o Renascimento foi para Ocidente entre os séculos 13 e 17.

Vem, aliás, do Renascimento a concepção de “autor”, que no presente se depara com sérios questionamentos, graças às novas práticas introduzidas pela tecnologia. “Iremos discutir como o conceito de “meta-autoria” favorece essa nova noção de criação autoral colaborativa. O artista hoje deflagra um processo criativo que ultrapassa a construção de enunciados, ou seja, vai além de construção textos, pinturas ou peças fechadas”.

Devido ao uso das tecnologias, tornou-se possível a criação de obras abertas. Um artista pode instituir os meios para que outros continuem seu trabalho, conferindo significados particulares às suas criações que, continuamente, ganharam novos sentidos.

“Isso não é arte!”

Um dos destaques desta edição, dentre os diversos eventos que preenchem o seu programa, é a mesa-redonda do dia 24, dedicada ao professor Walter Zanini, cuja influência intelectual continua a ressoar no campo da arte em mídias, sendo ele próprio uma das grandes inspirações pessoais para o professor Matuck.

Zanini, ex-diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, da ECA e curador da 16a e 17a Bienal de São Paulo, foi responsável, muito antes das novas mídias, pelo estabelecimento de uma rede de contatos entre artistas, pensadores e estudiosos de experiências artísticas nas mais diversas plataformas e tecnologias.

Muito admirado no meio, foi e ainda é “importante na carreira de muitos artistas e historiadores da arte, estimulando talentos, e sendo ele próprio um ‘precursor de precursores’ ”, conta Eunice. Num ambiente que exacerba a competitividade e o individualismo, Zanini se destacou como um incentivador de diferentes formas de se perceber a arte e o mundo, através do incentivo à colaboração entre várias pessoas, em várias épocas. Rebatendo críticas, a exemplo das que o próprio Matuck recebera no decorrer de sua carreira de pesquisador e artista, o professor Zanini foi um dos primeiros a quebrar tabus sobre o que definia algo como arte ou não.

Oficinas e atrações

Dentre as oficinas realizadas, os organizadores do Acta Media 10 destacam a do artista e videomaker croata Dalibor Martinis, da Academia de Artes Aplicadas, de Rijeka. O evento pretende reunir, no dia 20, performances artísticas, fotografia e discussões sobre as palestras “A Derrubada Icônica de um Regime” (dia 16) e “Projeto para Monumento Temporário Irregular” (dia 17) que tratarão da influência das mídias durante a chamada “Primavera Árabe”. É a primeira vez que o croata vem ao Brasil a convite dos realizadores do evento, fruto de um esforço de internacionalização da Universidade de São Paulo, e um exemplo de como as redes aproximam, cada vez mais, mentes interessadas em discutir sua influência global.

Do Brasil, os destaques ficam para as palestras do urbanista Caio Vassão, Doutor pela FAU-USP (“Metadesign e Projeto Reticular”, dia 16), o ensaísta e teórico de Estética Prof. Dr. Márcio Seligmann, da IEL-Unicamp (“Instantâneos da memória: foto, arte e literatura como meios de inscrição da memória”, dia 17), o idealizador do Programa Pontos de Cultura, Prof. Célio Turino, do MIS Campinas (“Cultura popular – o reticular lá na ponta!”, dia 17) e o doutor em composição Rodolfo Coelho de Souza, da FFCLRP-USP (“Argumentos sobre a hipótese de que Mozart tenha sido um robô alienígena”, dia 17).

Além da discussão sobre redes e, especificamente, arte nas redes, o evento também trará oficinas e apresentações musicais que incluem estrelas brasileiras e internacionais. “Queremos destacar como a música, a tecnologia e a arte estão cada vez mais relacionadas”, afirma Eunice ao explicar a escolha que quebra com a sisudez do que tradicionalmente se espera de um evento de cunho acadêmico.

Nesse contexto, o arquiteto e músico Emanuel Pimenta encabeça uma das principais atrações musicais, um concerto gratuito em homenagem ao compositor experimental americano John Cage, no Instituto Cervantes. Com a participação dos músicos Cid Campos, Arrigo Barnabé e Livio Tragtenberg, a apresentação “A Way A Lone Last A Loved” finaliza um programa de concertos que se inicia às 19h e inclui a presença do instrumentista Jon Appleton, professor no Dartmouth College, nos Estados Unidos, e um dos pioneiros em música eletroacústica. Após realizar uma oficina de música e tecnologia no dia 22, Appleton fará também um pocket show no dia 29.

Muito além do registro

Com edições previstas para os próximos anos, o Acta Media mantém seu diferencial por unir tecnologia e arte sob um mesmo teto. Mais do que isso, a intenção dos realizadores do evento é também inovar no quesito participação, utilizando-se de plataformas virtuais de interação entre os presentes, permitindo que eles deixem de ser apenas espectadores para construírem juntos os resultados do evento.

“O processo é longo e complexo, mas queremos dar a oportunidade de diferentes pessoas de se aproximarem da Academia. E aí está o ‘reticular’, que vai ser aplicado em todos os debates, de todas as diferentes temáticas”, conclui Eunice. Uma vez cientes de que a rede que cerca a todos não é apenas uma ferramenta tecnológica, os idealizadores do Simpósio esperam que ela passe a ser vista também como uma nova forma de convivência que, por isso, dá origem a formas inovadoras de se criar a realidade.

As inscrições para o Acta Media 10 podem ser realizadas via e-mail: actamedia10@gmail.com ou 30 minutos antes no local. Para as oficinas, as inscrições antecipadas custarão R$ 50,00 e devem ser realizadas na Secretaria Acadêmica do MAC na Rua da Praça do Relógio 109A, Cidade Universitária, São Paulo. As vagas são limitadas.

Mais informações: site www.actamedia.wordpress.com  

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