Pesquisadora quer desburocratizar a doação de corpos à Universidade

Entre outras ações, projeto planeja descentralizar o processo de doação | Foto: Wikimedia

Você confiaria em um médico que passou a faculdade toda fazendo cirurgias apenas em bonecos? Pois a falta de corpos para o estudo anatômico pelos estudantes de medicina e outros cursos da área da saúde é uma  realidade em quase todas as universidades do país – e o preconceito é o maior culpado.

Para contornar esse problema, a doutoranda em Anatomia Thelma Parada, propõe desburocratizar o atual sistema da cidade de São Paulo. A orientação do trabalho é do professor Edson Aparecido Liberti, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

“Quando uma pessoa morre, há basicamente duas alternativas: ou é enterrado ou cremado. Queremos divulgar que há uma terceira possibilidade, que é a doação voluntária do corpo para estudo. Nada pode ser mais nobre do que contribuir com a ciência mesmo após a morte”, explica Thelma. Para ela, ainda falta muita informação sobre isso, já que a maioria dos serviços funerários da capital, professores e cidadãos desconhecem essa possibilidade e, principalmente, o procedimento. “Eles dizem que não dá pra ser feito”, lamenta a pesquisadora.

Nada pode ser mais nobre
do que contribuir com a
ciência mesmo após a morte.

Seu projeto de pesquisa propõe, além de divulgar esse serviço – nos serviços funerários, dentro da própria Universidade e para a população em geral, descentralizar o processo de doação. “Hoje eu sou uma das únicas pessoas dentro da USP que conhece o processo inteiro. Eu quero que isso seja de conhecimento de todos, independentemente da minha presença aqui”, relata. Segundo Thelma, seu trabalho pode ajudar a resolver a curto, médio e longo prazo o problema de falta de cadáveres para os estudantes, o que dependerá da amplitude da divulgação alcançada.

Futuros profissionais

Thelma Parada, pesquisadora no ICB | Foto: Marcos Santos / USP Imagens

A principal via de recebimentos de corpos para os estudantes da USP são cadáveres de indigentes, número que vem caindo fortemente nos últimos anos. Isso diminui a quantidade de corpos destinados aos estudantes, principalmente de medicina e odontologia. Nos últimos quatro anos, a USP recebeu apenas três corpos.

Para Thelma, é fundamental na formação do aluno, poder estudar com detalhes a anatomia do corpo humano, além da anatomia particular de cada indivíduo. “Em uma pessoa a artéria pode passar mais superficial ou profundamente. É importante que o aluno conheça essa gama de variações anatômicas”, afirma a pesquisadora, aproveitando para levantar outra questão importante: “você confiaria em um médico que passou sua graduação inteira fazendo cirurgias e técnicas invasivas apenas em bonecos, sem lidar com a realidade?” questiona.

Um dos principais objetivos não é o
convencimento, mas o esclarecimento
daqueles que já tem a vontade de se
voluntariar mas não sabem o processo.

É nesse sentido que a doação voluntária de corpos é algo necessário para a sociedade como um todo, pois auxilia na formação dos futuros médicos, dentistas e profissionais da saúde, dando-lhes mais experiências, repertórios anatômicos e , na opinião da doutoranda, isso certamente diminuirá a quantidade de erros médicos.

Preconceitos

Morte ainda é tabu no país, dificultando pesquisas e aprendizado | Foto: Jenny O'Donnell / Wikimedia

“Falar de morte no Brasil parece algo fantasmagórico, infelizmente ainda é um tabu”, diz Thelma, quando questionada sobre os preconceitos que a doação de corpos enfrenta na sociedade. Ela compara a situação com o preconceito que xistia há algumas décadas com a doação de órgãos. “As pessoas tinham medo, por achar que poderiam retirar os órgãos da pessoa em vida, tentar induzi-las à morte ou coisas desse tipo. Com um trabalho de conscientização e esclarecimento, essa barreira tem sido superada”, explica.

Algo essencial para a pesquisadora, é que as opiniões sejam respeitadas e que as pessoas não considerem “malucas”, aquelas que em vida, decidem deixar seus corpos para estudo. Ela ressalta também o papel da família, que deve respeitar a escolha do falecido. “Do mesmo jeito que a família normalmente faz a vontade da pessoa que pede para ser enterrada ou cremada, deve-se respeitar aquele que quer contribuir com a ciência”. Nesse caso, trata-se também de uma tarefa de cada cidadão que deseja ser voluntário, deixando claro sua vontade aos familiares e indicando o que deve ser feito após a sua morte.

Para despreocupar os familiares, Thelma indica que existe toda uma ética envolvida no tratamento com um corpo e que sempre que alguém for manipular um cadáver “há o maior respeito possível”. Como medida adicional, é realizada uma missa a pessoa falecida,  além de um projeto para se fazer um jazigo em nome da USP com uma lápide para as homenagens familiares.

Mais informações: (11) 3091-7226, email thelmar@usp.br. Também é possível esclarecer dúvidas sobre o processo de doação no site da prefeitura, neste link.