Em visita à USP, designer finlandês questiona atual sistema de descarte de lixo

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Paloma Rodrigues/Agência USP de Notícias

A cada ano, a geração global de lixo eletrônico cresce cerca de 40 milhões de toneladas, segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Entretanto, o reaproveitamento e a reciclagem desse material não aumentam na mesma proporção. Preocupado com essa disparidade, o designer e professor finlandês Ilkka Suppanen procura alternativas possíveis para reverter esse quadro. Ele esteve nesta quinta-feira (29) no Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (CEDIR) da USP,  para promover uma oficina sobre resíduos eletrônicos. Para o designer, o primeiro passo é questionar o atual sistema de descarte de lixo.

Ao seu lado estava a comunicadora estratégica Tanya Kim Grassley, da Suécia. O evento, que contou com a participação de cerca de dez estudantes de diferentes áreas – engenharia, ciência ambiental e design – tentou formular questões que norteiem o assunto. “O mais importante agora não são as respostas, mas sim as perguntas. As perguntas certas é que vão gerar a reflexão sobre o processo de descarte de lixo e então poderemos repensar estratégias para todo o sistema”, disse Suppanen.

Na oficina, os participantes tinham de propor questionamentos para a indústria do descarte do lixo eletrônico. “O que precisamos estudar é o processo, para torná-lo mais eficiente. Não podemos continuar reparando pequenos problemas, a estrutura toda tem de ser alterada ”, disse Tanya.

Não podemos continuar reparando
pequenos problemas, a estrutura
toda tem de ser alterada.

Os tópicos trabalhados foram: como descartar o lixo eletrônico, como separar os tipos de material do computador, como ser inteligente na venda e distribuição do material e como pensar em uma legislação para o tema.

O CEDIR está instalado na Cidade Universitária desde dezembro de 2009, onde implementa práticas de reuso e descarte sustentável do lixo eletrônico. O projeto veio garantir que o material utilizado pela USP fosse descartado de maneira adequada e pudesse ser reutilizado por projetos sociais.

O porquê do Brasil

Quando questionados sobre o porque de escolherem o Brasil, e mais especificamente a cidade de São Paulo para trabalharem no tema, ambos ressaltam que os estudos aqui desenvolvidos são um modelo mundo a fora. “Eu realmente acredito que este é o lugar mais avançado do mundo nessa questão. Eu estou vendo aqui o nível de entendimento que as pessoas tem sobre o desperdício do lixo, é uma coisa única”, diz Suppanen.

A USP também ganha destaque: para ambos, a universidade desenvolve o melhor trabalho do mundo na área da pesquisa em resíduos.

O designer finlandês conheceu o projeto desenvolvido no CEDIR por meio da professora Maria Cecília Loschiavo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. “Há cerca de quatro anos, eu estava ministrando uma palestra na Europa contando sobre as pesquisas que desenvolvemos no Brasil. Foi quando o Ilkka Suppanen me fez um convite para trabalharmos juntos.”

Inicialmente, eles desenvolveram produtos com o material coletado, durante as aulas da disciplina Design para sustentabilidade, comandada por Maria Cecília. O contexto mudou quando o Brasil aprovou a Política Nacional para Resíduos Sólidos, em 2010. A situação ficou ainda mais favorável para repensar a questão: professores engajados no tema, uma discussão fomentada na comunidade e, agora, uma legislação com leis específicas para o assunto.

Suppanen, que é professor da Aalto University, conta que a Finlândia não tem centros de estudo e pesquisa sobre o descarte do lixo. “Quando conto sobre esses espaços meus alunos ficam surpresos. E eu acredito que isso os motive e encoraje a repensar o descarte do lixo na Finlândia também.”

A crise econômica levantou a questão do descarte do lixo e do consumo excessivo na Europa. Um europeu gasta em média R$ 12,00 para descartar uma sacola com materiais recicláveis – enquanto no Brasil isso é feito gratuitamente pelas prefeituras ou pelos catadores. A crise que gera o desemprego de milhões, vem levando muitos a coletarem lixo nas ruas para garantir alguma renda.

Reciclagem insuficiente

Os números da reciclagem hoje em dia não são suficientes para a quantidade de dejetos produzidos pelas sociedades contemporâneas. Segundo Maria Cecília, a partir do século 21, o grau de complexidade das sociedades aumenta tanto, que elas passam a ter de repensar suas bases. “As soluções agora precisam ser pensadas interdisciplinarmente. Precisamos unir tecnologia, informática e engenharia para conseguir melhorar alguma coisa”.

Tanya explicou que é difícil impor uma intenção, ainda que ela seja boa. Em uma sociedade complexa, os cidadãos precisam entender o papel que exercem, pois só assim poderão evoluir enquanto comunidade. Em uma cooperativa de catadores isso só é possível quando eles entendem todos os processos pelos quais o lixo passa.

Para a coordenadora do Laboratório de Sustentabilidade (LASSU), professora Tereza Carvalho, a visão que a sociedade tem dos catadores de recicláveis ainda é preconceituosa. “Precisamos trabalhar junto à sociedade para mudar esta mentalidade. Quando as pessoas verem as coisas maravilhosas que podem sair do lixo, elas vão enxergar os catadores de maneira diferente”.

Essa mudança de mentalidade também foi abordada por Tanya, que disse ser esse o ponto que motiva seu trabalho: mudar a percepção que as pessoas têm do lixo. “Eu queria criar um novo pensamento, mudar a maneira como as pessoas falam do lixo. Hoje ele é simplesmente rejeitado”, disse. Para essa mudança acontecer, ela explicou que é preciso criar uma ponte entre o trabalho formal e o informal, pois só essa ligação pode diminuir as desigualdades sociais.

Mais informações: sites www.scandinaviandesign.com/ilkkaSuppanen e www.straightforward-design.net/designers/ilkka-suppanen-koizumi (em inglês)

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