Pesquisa da FFLCH identifica que concepções morais influenciaram a psiquiatria paulista

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Mariana Melo / Agência USP de Notícias

As concepções morais, científicas e sociais de Antônio Carlos Pacheco e Silva, psiquiatra e diretor do Hospital do Juquery, entre 1923 e 1937, influenciaram as terapias e os tratamentos aplicados aos internos do antigo manicômio, segundo o estudo do historiador Gustavo Querodia Tarelow.

A dissertação Entre febres, comas e convulsões: as terapias biológicas no Hospital do Juquery administrado por Pacheco e Silva (1923-1937) foi realizada no Departamento de História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP sob orientação de Maria Amélia Mascarenhas Dantes.

Pacheco e Silva foi um influente médico paulista, neto de barões e filho de fazendeiros cafeicultores, ou seja, representantes da elite de São Paulo na época. Formou-se na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1920 e, em seguida, especializou-se em neuropsiquiatria na Europa para voltar ao Brasil e ser admitido por Franco da Rocha, fundador do Conjunto Juquery, em 1920.

Em 1923, diante da aposentadoria de Franco da Rocha, tornou-se diretor. Na sua administração, tentou parelhar o hospital estadual com os principais centros europeus de tratamento e pesquisa. Pacheco e Silva também fundou o Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Além de apresentar elevada produção acadêmica, Pacheco e Silva tinha muita atuação política e defendia concepções conservadoras de valores morais. Como deputado constituinte, em 1934, defendeu ideias como esterilização de doentes e controle de imigração.

A partir de 1925, Pacheco e Silva aplicou nos internos do Juquery as técnicas desenvolvidas pela pesquisa psiquiátrica na Europa. Por ser um médico organicista, acreditava que as doenças psiquiátricas eram provenientes de lesões no cérebro, o que era um pensamento comum à época. Segundo Tarelow, “o paciente era um objeto no meio dessas concepções políticas e científicas”.

Prontuários

Para a pesquisa, o historiador avaliou documentos sobre a trajetória do diretor, revistas médicas da época e prontuários. Nas revistas, Tarelow procurou acompanhar os avanços médicos da área psiquiátrica. A análise dos prontuários revelou que alguns pacientes apresentavam piora de seus quadros numa segunda avaliação. Além disso, detectou condições precárias de internação, pacientes que recebiam a primeira avaliação depois de vinte anos de internação e morte por falta de cuidados.

As técnicas introduzidas a partir de 1925 correspondem aos tratamentos de choque. Neles, os pacientes são estimulados de forma brusca, o que provocaria mudanças no organismo. Nesse contexto, a malarioterapia foi empregada como tratamento da paralisia causada pelo desenvolvimento da sífilis. Nesta técnica, os doentes eram contaminados com malária, pois acreditava-se que a febre alta acabava com a desorientação causada pelo estado avançado da sífilis.

Também foram implantadas terapias convulsivas no tratamento da esquizofrenia, ainda que, após a convulsão induzida com o medicamento cardiazol, o paciente voltasse em estado de pânico. Outra técnica difundida foi o eletrochoque para esquizofrênicos. Além dessas técnicas, Tarelow também levantou o uso de insulinoterapia, que induzia pacientes ao coma por hipoglicemia, e a lobotomia, técnica cirúrgica que desconectava o lobo frontal do restante do cérebro.

Somente nos casos de malarioterapia, os profissionais emitiam uma autorização para ser assinada pelo paciente ou seus responsáveis, ainda assim, a autorização só era emitida a pacientes que tivessem vínculos familiares. Quando comparou o número de internações de homens e mulheres, o pesquisador percebeu que, ainda que a internação de homens e mulheres estivesse em uma relação de três homens para uma mulher, na aplicação das terapias em desenvolvimento, a relação era de um para um. Para ele, as pesquisas revelaram que, de maneira geral, as mulheres acabavam sendo usadas como instrumento de desenvolvimento de tais técnicas, de modo que os resultados obtidos na maioria das vezes eram pouco favoráveis.

O Juquery, que fica na cidade de Franco da Rocha, em São Paulo, e já chegou a 18 mil internos na década de 1960, hoje possui cerca de 250 pacientes e passa por um processo de desativação. Para Tarelow, é importante que sua pesquisa sirva para alimentar debates sobre a ética em pesquisas e sobre a internação de pessoas acometidas por doenças mentais e até, numa discussão recente, usuários crônicos de drogas. “É preciso mostrar a História para que não haja reincidência”, finaliza.

Mais informações: email tarelow@usp.br, com Gustavo Tarelow

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