Mario Schenberg: um físico no caminho da arte brasileira

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Leila Kiyomura/Jornal da USP

Albert Einstein o apontou como um dos dez mais importantes cientistas de sua época. Porém, Mario Schenberg não era só o pioneiro da física teórica nacional. A mente brilhante elogiada por Einstein ia além do espaço e do tempo da física. Schenberg buscava o universo infinito da arte.

Pesquisar esse cidadão sem fronteiras ideológicas é o desafio da historiadora e crítica de arte Alecsandra Matias de Oliveira. No livro Schenberg – Crítica e Criação, lançado pela Editora da USP (Edusp), ela apresenta a amplitude de seu pensamento, que une ciência e arte, Oriente e Ocidente, marxismo e budismo.

“Que condições levam um físico renomado internacionalmente como Mario Schenberg a exercer uma segunda atividade aparentemente tão díspare como a crítica de arte? Essa é uma questão que sempre pauta os estudos sobre sua personalidade.” Na tentativa de buscar uma resposta sobre o físico que estudava as artes com o olhar de cientista e pesquisava a física com a criatividade da arte, Alecsandra pesquisou os caminhos que ele trilhou.

Que condições levam um físico a exercer
uma segunda atividade aparentemente
tão díspare como a crítica de arte?

A historiadora buscou suas ideias e produção crítica nos diversos livros que resultaram dos depoimentos gravados em aulas ou em conversas informais. Também pesquisou o material coletado nas duas décadas de fundação do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Arte e ciência

“As relações de Schenberg com a arte foram iniciadas muito cedo, mais precisamente aos 8 anos de idade, quando fez a primeira visita à Europa na companhia de seus pais. Sempre fazia questão de sublinhar que o primeiro interesse artístico se deu ao observar catedrais góticas em Paris. Na volta ao Brasil, a visão binocular dos edifícios parisienses atrairia suas atenções por muito tempo. A arquitetura da Cidade-Luz o tinha fascinado e marcado para sempre a sua infância.”

A pesquisadora conclui que o interesse pela arte veio primeiro do que o pela ciência. “Quando o jovem Schenberg abriu seus horizontes para a geometria, era pela razão de o auxiliar na utilização de suas percepções visuais. Quando realizou as experiências químicas, ainda não o fez como um estudo científico, pois ele mesmo admitiu que nem sabia o que era ciência e que as experiências eram apenas de principiante. Em suas palavras, uma espécie de alquimia.”

Foi essa espécie de alquimia que Alecsandra buscou entender no percurso múltiplo do cientista, do crítico e professor. A historiadora também vai por caminhos diversos, contextualizando o tempo social, político e cultural em que vivia. “Schenberg possuía uma tendência à esquerda e sua concepção histórica era permeada pela doutrina marxista. Todos esses aspectos evidenciaram-se em um ambiente politicamente ativo como era a Escola Politécnica e, em seguida, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.”

No percurso como cientista, Alecsandra lembra a sua ida para a Europa em 1938, quando trabalhou com os mais importantes cientistas da época, como Giuseppe Occhialini, Enrico Fermi e Tulio Levi-Civita. De 1940 a 1942, Schenberg, com a propagação da Segunda Guerra Mundial, continuou suas pesquisas nos Estados Unidos. A pesquisadora destaca que as suas contribuições para a astrofísica são reconhecidas na atualidade. “Seu trabalho com o astrofísico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar, em 1942, constitui um dos pilares da teoria da evolução estelar.”

Ao mesmo tempo em que se dedicava à ciência, Schenberg pesquisava o campo artístico. “No início de 1939, há registros de que Schenberg tenha travado conhecimento, pela primeira vez, com um artista de renome. Era Emiliano Di Cavalcanti, que, naquela época, tinha uma ateliê em Paris com De Chirico, onde vários artistas e intelectuais reuniam-se.”

Alecsandra traz o fotógrafo Mario Schenberg, que revela aspectos de seu gosto estético. “A sua produção fotográfica foi realizada em preto e branco, com uma infinidade de matizes cinza, utilizando, alternadamente, papel-cartão e papel fotográfico”, analisa. “Os enquadramentos são muito bons e deixam entrever um olhar original, principalmente sobre a natureza e sobre as coisas comuns do cotidiano.”

Schenberg iniciou a atividade como crítico de arte em 1942. Considerava o artista como centro de criação. Preocupava-se em conhecer o artista como ser humano. “O crítico entendia que essas marcas impressas nas obras eram passíveis de leitura, sendo de extrema importância identificar a natureza humana por trás delas e, então, decodificá-las”, observa a historiadora.

Alecsandra analisa o envolvimento social e político de Mario Schenberg, que ingressou na USP em 1944, como professor de Mecânica Racional e Celeste. Entre 1953 e 1962, dirigiu o Departamento de Física. Em 1969, durante a ditadura militar, foi aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional número 5 (AI-5).  “No momento em que estava sendo perseguido pela Polícia, era o único latino-americano convidado para um congresso internacional sobre física de altas energias realizado em Kyoto.”

Schenberg – Crítica e Criação, de Alecsandra Matias de Oliveira, publicado Edusp, custa R$ 39,00 e pode ser encontrado no site da editora.

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