Pesquisa da FE revela que orientadores são essenciais na produção acadêmica

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Sandra O. Monteiro / Agência USP de Notícias

O papel do orientador é essencial para que o aluno de pós-graduação possa realizar um trabalho consistente, eficiente e que fuja ao senso comum. Diferentes intervenções do orientador refletem diferentes respostas do estudante. Um estudo de caso realizado na Faculdade de Educação (FE), da USP, pela pesquisadora e professora Suelen Igreja mostra como aos poucos a orientação permitiu a uma aluna de mestrado o amadurecimento na forma de expor teorias, ideias e dados de suas pesquisas. A professora revela que três passagens são fundamentais no processo de escrita: da transferência à transferência de trabalho, da vergonha narcísica à vergonha psicanalítica e da culpa à responsabilidade sexual.

Dados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mostram que cerca de 70% dos alunos de pós-graduação não a concluem. “Minha intenção, no entanto, não foi buscar o porquê das desistências, mas a forma como um trabalho é conduzido pelo orientador de forma que venha a ser finalizado”.

Para o estudo de caso, foram analisados 355 versões de textos produzidos por Louise, aluna de mestrado em Ciências Humanas de uma Universidade Pública e por sua orientadora Jacqueline (os nomes são fictícios para preservar a identidade da estudante e da orientadora). Os textos foram extraídos de um banco de dados chamado “Movimentos do escrito”, organizado pelo Grupo de Pesquisas e Produção Escrita e Psicanálise (GEPPEP) da FE. O banco reúne textos de alunos de pós-graduação e de ensino médio e visa a ser uma fonte de estudo que possibilite verificar mudanças que ocorrem durante o processo de escrita da pessoa.

Transferência de trabalho

No caso de Louise, “contei com versões digitadas, anotações e intervenções da orientadora e até mesmo com textos escritos manualmente. Em alguns, a orientadora dizia não se preocupe com a minha reação, se eu estou triste ou feliz com o que você escreve”. Isto parece paradoxal, mas é bem comum que a preocupação inicial do pós-graduando seja “se vai ou não agradar ao orientador” diz a pesquisadora. Ela explica que a relação que se estabelece entre o orientador e o aluno é o que se denomina transferência. Mas enquanto o próprio aluno não percebe que o objetivo principal não é contentar o professor, mas assumir a responsabilidade diante do trabalho que se propôs a fazer.

Um exemplo disso, no caso de Louise, ocorreu durante a análise de dados. Segundo a pesquisadora, as intervenções da orientadora muitas vezes se caracterizavam pelo corte de expressões de culpa ou de descontentamento da aluna diante do trabalho que não conseguia fazer. Voltava-se sempre para o trabalho, para estratégias que poderiam ser usadas para refinar as analises feitas, a fim de que sua aluna aprendesse a lidar com os dados de forma mais objetiva, trazendo “um novo texto, com conclusões mais amadurecidas e refletidas”, reflete a pesquisadora.

Sexualidade

A questão da sexualidade envolve também o agradar ao outro, o ser atrativo de alguma forma para quem lê. “É difícil para quem escreve se distanciar do texto e aceitar as críticas feitas a ele como não pessoais”. A pesquisadora explica que existem os casos em que o aluno não quer mostrar o texto porque “Ai! Ficou muito ruim, não quero que você leia…”. Mas há também aqueles em que a indignação do estudante em relação às críticas do orientador é o famoso “como assim, quem ele pensa que é, sempre me disseram que eu escrevia muito bem”, exemplifica. Em ambos os casos, há por parte do aluno um comportamento similar como se o não gostar da forma como o texto foi escrito gere um, “então, ele não gosta de mim”, comenta a pesquisadora. O papel do orientador, no entanto, é mostrar ao aluno que é necessário sair do campo da pessoalidade e se voltar ao trabalho. “É fundamental entender que o seu texto não é você e que as críticas feitas pelo orientador são apenas uma visão de fora, que podem trazer detalhes ou falhas que o autor do texto não consegue enxergar. Não que o orientador desgoste do aluno”, reflete.

Da vergonha narcísica à psicanalítica

A passagem da vergonha narcísica para a psicanalítica, ou seja, a famosa “vergonha na cara”, o fazer o que deve ser feito em nome de sua própria honra e não pelas pressões externas acontece quando este aluno enxerga estas dificuldades. Perde sua arrogância. Busca por respostas para suas deficiências e passa a se responsabilizar por seu próprio texto. “Produzindo e não apenas reproduzindo o que já escrito por outros autores ou mesmo pelo orientador”, complementa Suelen.

O orientador pode ajudar seu aluno a buscar maneiras de lidar com o que não sabe, deixando de entender seu “não saber” como algo errado, que deve ou não ser punido, para se focar na busca de maneiras de lidar com os impasses e dificuldades que enfrenta durante o processo de escrita de sua dissertação. Ele acaba por mostrar ao estudante que ambos ainda estão em formação, mesmo que em patamares diferentes. E isto é feito na medida em que o orientador dá mostras de sua própria incompletude. Se a princípio ele é colocado pelo aluno no lugar daquele que detém o saber, não pode se instaurar nesse lugar. Precisa abrir espaço para que seu aluno se depare com o não saber.

A dissertação de mestrado “O mestrando e sua relação com o conhecimento: efeitos da transferência de trabalho em versões de texto” foi orientada pela professora Claudia Rosa Riolfi, do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da FE.

Mais informações: email sue-igreja@usp.br, com Suelen Igreja

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