Cinusp dá “quebrada” em estereótipos com mostra sobre a periferia

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Entre os dias 1 e 5 de outubro, o Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp) apresenta a primeira edição da Mostra de Cinema da Quebrada no Cinusp, que traz a exibição de 22 filmes, de curta e longa-metragem, realizados e protagonizados por pessoas que vivam o cotidiano das periferias de grandes cidades do país, mostrando situações ocorridas nestes cenários.

A Mostra trará produções como “5x Favela – Agora Por Nós Mesmos” (2010), produzido por Carlos Diegues e Renata de Almeida Magalhães e “Bróder” (2011), além de documentários como “Curta Saraus” (2010) e “Nota de Corte” (2011). Uma das principais atrações do evento será a pré-estreia do filme “5x Pacificação”, dividido em 5 blocos – Morro, Polícia, Bandidos, Asfalto e Complexo. O longa reúne alguns dos realizadores da produção de 2010, apresentando depoimentos de  representantes de diversas camadas das comunidades sobre a instalação, funcionamento e convívio das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), em favelas e morros do Rio de Janeiro. A estreia em circuito nacional está prevista para 16 de novembro.

Um dos principais idealizadores do evento, o cineasta Renato Cândido, mestre pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, explica como surgiu a ideia. “Em 2006, quando eu ainda frequentava a ECA, a professora Esther Hamburger [atual diretora do Cinusp] deu uma aula na pós-graduação, onde realizou um encontro de várias frentes do cinema mais periférico. “Eu achei a iniciativa interessante e tivemos muitas conversas sobre o assunto, tanto que ela veio a se tornar minha orientadora”, conta. “O nome ‘Cinema da Quebrada’ não é simplesmente uma referência direta aos bairros literalmente mais periféricos de cada cidade, mas àquelas ‘quebradinhas’ que todo bairro tem, como ruas mais estreitas que acabem sendo ocupadas por pessoas que lidam mais com as dificuldades do dia-a-dia, os imigrantes de outros estados, por exemplo, que é o caso dos meus pais, vindos de Pernambuco”.

O nome ‘Cinema da Quebrada’ não é simplesmente uma referência direta aos bairros literalmente mais periféricos de cada cidade, mas àquelas ‘quebradinhas’ que todo bairro tem.

A expectativa do cineasta é de que o público possa comparecer durante as atividades, mas aponta alguns fatores que podem dificultar uma presença mais massiva: “Primeiro, acho que a USP acabou se apartando do resto da cidade de São Paulo. Só há pouco tempo é que foi inaugurada uma estação de metrô relativamente próxima, mas mesmo assim a Universidade não faz parte da vida normal das pessoas. Tirando os frequentadores assíduos, que são alunos e funcionários, o povo não coloca tanto o campus em seu caminho”, opina. “Além disso a divulgação acabou ficando restrita ao mailing do Cinusp, ao ‘boca a boca’ e eventualmente às redes sociais”.

Por meio de sessões de cinema e debates posteriores, a Mostra de Cinema da Quebrada no Cinusp vai procurar atender a alguns objetivos importantes, como ressalta Cândido. “Um exemplo de assunto sério a ser debatido é de que os filmes da programação, que são de festivais próprios para o ‘gênero’, como o Cine Favela, vêm em número muito maior do eixo Rio-São Paulo, onde as produções estão centralizadas. Esta situação será analisada e conversada nesses debates, e em mostras futuras vamos procurar nos atentar às obras de outros lugares”.

Eele destaca ainda que não se trata de “um evento elitista, que vai mostrar uma visão externa do audiovisual da periferia, como uma ‘vitrine de zoológico’, nem é também uma atividade exclusiva para uma classe da população.” A inteção é derrubar estereótipos, questionar, gerar reflexão, não só sobre produções cinematográficas, mas sobre a vida das pessoas.

Renato Cândido, que fará parte da mesa de debate do primeiro dia do evento, com o tema “Identidade ou Gueto?”conta um pouco mais sobre o que o público vai encontrar na Mostra. “Essa visão mais próxima do povo ‘da quebrada’ é uma oportunidade das pessoas conhecerem o que é uma realidade ‘de falta’. A ‘falta’ de certas facilidades no cotidiano deles é normal, e acaba influenciando não só no modo de vida, mas, por consequência, também as produções cinematográficas”.

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