‘Faça um Fóssil Muito Fácil’ desperta em crianças o interesse pela paleontologia

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Daniela tem apenas cinco anos e, como todas as crianças de sua idade, não conhece muito sobre o mundo e suas profissões. Mas a menina já frequenta regularmente congressos nacionais e internacionais de paleontologia. O que pode soar inusitado logo se justifica quando ficamos sabendo que Daniela é filha dos professores Felipe Antônio de Lima Toledo e Karen Badaraco Costa, ambos do Instituto de Oceanografia (IO) da USP.

As particularidades de Daniela, porém,  não param por aí. Ela também pode se orgulhar de ser inspiração para um projeto de educação científica criado, claro, pelo pai. “Para conseguir explicar para  a minha filha o que  o pai dela fazia e que importância isso tinha, até porque nós a levamos bastante aos congressos e eventos da área, tive que criar um método simples e didático”, conta o professor, ao relatar o surgimento do projeto Faça um Fóssil Muito Fácil.

O principal objetivo é fazer qualquer criança como Daniela entrar, de forma simples e lúdica, no mundo que envolve a paleontologia e seus estudos transversais. Pode parecer impossível despertar o interesse de crianças de tão pouca idade por um tema tão árduo, e com nomes tão complicados como micropaleontologia e foraminíferos. Mas a criatividade de professores e  alunos participantes tornou o projeto uma realidade.

Faça um Fóssil Muito Fácil

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

As atividades estão estruturadas em faixas etárias que envolvem os alunos. Na primeira fase, de 3 a 10 anos, a principal atividade realizada é a do sítio arqueológico, em que as crianças reconhecem pequenos fósseis feitos de gesso e depois devem procurá-los em uma caixa de areia, como se fosse uma exploração, de fato.

“Ficamos um pouco preocupado com a organização, das crianças de repente quebrarem os gessos, mas o que aconteceu foi o contrário. Só faltava eles usarem o pincel para procurar o ‘fóssil'”, relata Toledo. “No início alguns chegaram até a ficar com medo, achando que havia um dinossauro na caixa e que ele ia pegar a mão das crianças”, sorri o professor. O receio acontece por conta de uma explicação prévia dada pelos bolsistas usando a figura do dinossauro para explicar o processo de “criação” do fóssil.

Não temos a pretensão de, nessa idade,

querer formar paleontólogos, mas é interessante

mostrar a profissão para as crianças

Para as crianças um pouco mais velhas, além da exploração do sítio são oferecidas oficinas para confecção do próprio fóssil através de moldes de silicone que, posteriormente, ficam com o aluno que fez o fóssil.

Na faixa etária dos 10 aos 15 anos, outros dois jogos são adicionados: quebra-cabeças com imagens de nanofósseis calcários e foraminíferos planctônicos; e um jogo da memória em que, além da imagem, constam informações como o nome científico, habitat e idade geológica em que os respectivos seres viveram.

Para Toledo, o projeto é uma forma de aproximar o jovem estudante da academia, que por vezes, é muito distante. “Não temos a pretensão de, nessa idade, querer formar paleontólogos, mas é interessante mostrar a profissão para as crianças”, analisa.

Crescimento acadêmico

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Mais do que a diversão para os pequenos, o projeto traz benefícios aos alunos do IO que dele participam. Mariane Gonzales, do terceiro ano de oceanografia, conta que o trabalho envolveu muita pesquisa: “só para montar o jogo da memória tivemos um longo processo de pesquisa, que eu não teria em nenhuma disciplina da graduação”.

O professor vai na mesma direção e afirma que o projeto pode estimular a pesquisa nos alunos do Instituto. “Pode ter certeza que esse trabalho ajudou bastante a Mariane e a tendência é que ela tenha um desenvolvimento acadêmico cada vez maior”.

Além do lado acadêmico, Mariane reforça o crescimento pessoal que teve lidando com o público infantil. “É muito legal quando você começa a explicar alguma coisa e sente o interesse deles. Eles perguntam, ficam animados, querem conhecer mais. É muito gratificante”, relata a estudante.

Para o futuro

No momento, o projeto encontra-se pausado, já que por conta da faculdade e outros compromissos, os alunos não têm muito tempo para agendar as visitas, além de outros projetos de pesquisas dos docentes. Mas para o próximo ano, planeja-se viabilizar bolsas de iniciação científica ou do projeto Aprender com Cultura e Extensão, da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP, para que as visitas às escolas retornem.

Também para o ano que vem, há a ideia de se distribuir kits para as escolas visitadas, com moldes de silicone para fazer os fósseis e os jogos de memória e quebra-cabeça. À escola só caberia o custo do gesso. Segundo Toledo, “esse é um projeto de baixo custo, mas ainda assim, precisamos de algum tipo de incentivo ou patrocínio para arcar com os gastos”.

Com a dificuldade de realizar as visitas, uma possibilidade para não deixar a iniciativa parada é inserir o Faça um Fóssil Muito Fácil no roteiro de atrações do Museu de Oceanografia do Instituto. Hoje, o Museu abriga uma peça do projeto onde as crianças veem alguns fósseis dentro de um submarino. “A ideia é colocar a criança em uma situação oposta. Ao invés de nós, seres humanos, estamos dentro de um submarino olhando os fósseis do lado de fora, o que acontece é nós estarmos fora e os fósseis do lado de dentro”, planeja o professor.

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