Busca por padrões pode prejudicar tomada de decisão, aponta estudo do ICB

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Antônio Carlos Quinto / Agência USP de Notícias

Em processos que exijam tomadas de decisão, talvez a melhor opção pode ser aquela em que não sejam levados em conta padrões ou a busca deles. “Mesmo que não exista um padrão, é normal a pessoa buscá-lo de alguma forma no momento de decidir por uma ou mais alternativas”, aponta a biomédica Carolina Feher da Silva. Segundo a cientista, testes clássicos realizados com seres humanos revelam que eles sempre buscam algum tipo de padrão entre opções. Nestes experimentos com animais verificou-se que eles não buscam por padrões complexos, mas simplesmente optam pela estratégia simples de escolher sempre a opção em que a recompensa era mais frequente, o que pode ser considerado “ótimo” nestes testes. “Evitar a busca por padrões em momentos de decisão pode ser a melhor alternativa”, considera Carolina, que realizou pesquisa sobre o tema no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

Um exemplo de teste clássico é aquele em que a pessoa tem duas opções de escolha entre duas figuras de forma quadrada. “A pessoa pode optar pelo quadrado da direita ou da esquerda, sendo que em um deles haverá algum tipo de recompensa. Depois de cerca de 300 tentativas fica claro que a pessoa começa a buscar algum tipo de padrão, tentando memorizar quantas vezes a recompensa surgiu, de um lado, ou de outro”, descreve. No entanto, os testes dispõem as recompensas de maneira aleatória. Em testes semelhantes realizados com animais, cujos resultados estão disponíveis na literatura, os resultados foram melhores. “Por não terem a capacidade de buscar ou estabelecer padrões, os animais, principalmente peixes e ratos, acabam apresentando melhores resultados”, conta Carolina.

Estas observações podem ser levadas a diversas atividades humanas, como na Economia por exemplo. “Nem sempre as variações que ocorrem em sistemas como a bolsa de valores obedecem a um padrão. Mesmo assim, a tendência na hora de uma opção ou decisão é buscar por um, mesmo que ele não exista”, descreve Carolina.

Animais virtuais

Para avaliar processos de uma tomada de decisão, a biomédica estudou testes descritos na literatura e criou um ambiente virtual baseado em um modelo matemático. Com base neste modelo, Carolina construiu “animais virtuais”. “São modelos animais dotados de um sistema nervoso simples e que são capazes de tomar decisões binárias”, descreve. Os animais virtuais foram construídos de acordo com a teoria da evolução de Darwin com o que ela chama de “vida artificial”.

Nos experimentos realizados no Laboratorio de Fisiologia Sensorial do ICB Carolina submeteu os “animais virtuais” a testes semelhantes aos já consagrados na literatura. Num primeiro momento, ela apresentou uma sequência simples: esquerda/ esquerda/ direita. Em outra simulação, apresentou uma sequência mais complicada e com mais variações. “Quando submetidos ao teste com mais variações, os animais adotaram uma estratégia considerada ‘ótima’, ou seja, escolhiam o lado em que a recompensa era mais frequente”, conta a biomédica. Segundo ela, isso não acontece com o ser humano, que busca por um padrão. “O homem é mais inteligente que os animais na busca por padrões. Porém, quando tem diante de si uma sequência aleatória não sabe onde buscar estes padrões”. Já o animal, segundo a pesquisadora, ao invés de buscar padrões opta por um lado mais frequente.

O estudo de Carolina está descrito na tese de doutorado Abordagem computacional e psicofísica da alocação atencional e tomada de decisão, defendida em 2011 no ICB, sob orientação do professor Marcus Vinícius Chrysóstomo Baldo. Para a biomédica, a sua pesquisa poderá servir de base para outros estudos na área de tomada de decisões, que poderão ser aplicados em diversas atividades humanas, como na Economia e Publicidade, entre outras. “As pessoas, em geral, tendem a raciocinar que tudo tem um motivo, ou seja, buscando sempre por padrões”, exemplifica Carolina. De acordo com a pesquisadora, buscar padrões é a melhor estratégia quando existem padrões a serem descobertos. “Isso se torna ruim quando não existem padrões”, ressalta. “É preciso que por vezes se pense de maneira alternativa de que algum acontecimento tenha sido simplesmente, por acaso”. O artigo referente à pesquisa de Carolina, A Simple Artificial Life Model Explains Irrational Behavior in Human Decision-Making, foi publicado na revista científica PLoS ONE, na edição de maio de 2012.

Mais informações: mirrorballu2@gmail.com, com Carolina Feher da Silva

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