Grupo da EACH estuda fatores do envelhecimento saudável

Publicado em Comportamento, USP Online Destaque por em

O envelhecimento é um tema que ainda traz muita preocupação.  Nessa fase as doenças, tanto físicas quanto mentais, costumam aparecer com maior frequência.  É preciso lidar com as alterações que geram maior vulnerabilidade, como problemas no equilíbrio ou na memória, por exemplo. Mas a idade avançada não precisa se resumir a a problemas. Pesquisadores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP vêm desenvolvendo trabalhos que estudam a construção de um processo de envelhecimento mais saudável.

O Núcleo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Gerontologia (NEPEG) da EACH conta com diversas linhas de pesquisa voltadas para a velhice e o envelhecimento. A professora Mônica Yassuda desenvolve, no núcleo, pesquisas relacionadas à neuropsicologia do envelhecimento, memória e treino cognitivo. Nelas, investiga através de testes cognitivos se as alterações que o idoso apresenta são as esperadas para a idade, o que indica um envelhecimento saudável, ou se elas são sugestivas de demência. “Uma vez identificada alguma alteração patológica, a pessoa deve buscar um diagnóstico, e se ele realmente for de demência, ela já pode começar um tratamento mais cedo. Infelizmente, não se trata de um tratamento curativo, no caso do Alzheimer, mas existem medicamentos que suavizam o declínio. Há também a possibilidade de frequentar algum centro de reabilitação”, completa a professora.

A pessoa deve buscar um diagnóstico, e se ele
realmente for de demência, já pode
começar um tratamento mais cedo.

Existem também as oficinas de treinos cognitivos, oferecidas aos alunos participantes do programa Universidade Aberta à Terceira Idade (Unati) da USP, em que as pessoas aprendem sobre as alterações que ocorrem na memória, conforme o passar do tempo, e aprendem estratégias mentais e externas para melhorar seu desempenho.

A psicologia do envelhecimento também é alvo de estudos da professora, envolvendo temas que estão relacionados principalmente ao bem-estar. “As pesquisas procuram entender por um lado o que é viver bem, o que gera prazer e felicidade para o idoso e, por outro, como seu legado, que está associado a sentido de vida,  é construído por ele”, explica Mônica.

Ainda, sob orientação e supervisão dos professores, os alunos da graduação em Gerontologia da EACH realizam diversas atividades  em Centros de Convivência para o Idoso. Um dos convênios é com o  projeto Samuel Rangel, que começou com a ação social dos frequentadores da Igreja Metodista de Pinheiros e conta com o financiamento da Prefeitura e do Estado de São Paulo. Os alunos, nas primeiras visitas, observam os idosos que frequentam o Centro de Convivência e coletam suas demandas. Depois, desenvolvem os projetos junto com os idosos. Esse ano, por exemplo, realizaram o “Homenageandos”. “É um projeto que envolve a todos. Além de fazer bem àqueles que são homenageados, nós estimulamos a criatividade dos participantes e a criação de vínculos entre eles”, ressalta Andrea Lopes, antropóloga e pesquisadora do Núcleo.

Envelhecimento significativo

Outra linha de pesquisa desenvolvida no NEPEG trata de “Envelhecimento Significativo e Engajamento Social”. O objetivo é investigar os significados construídos ao longo do envelhecer e a importância que eles assumem na definição de escolhas, estilos de vida e formas de participação social, além de levantar e registrar diferentes significados de ser velho e envelhecer no Brasil.

“Os idosos precisam participar de atividades que deem algum sentido e propósito à sua vida,”, explica Andréa. Nesse sentido, seus trabalhos destacam a importância do engajamento social na construção desse sentido e orientação de vida. “Estudamos um senhor, que é pai de santo e se entende como médium desde muito cedo. Esse engajamento religioso vem orientando toda a vida dele, porque de acordo com as tradições da Umbanda, sua religião, existem dias em que não se pode realizar determinadas atividades, como ingerir bebidas alcoólicas, por exemplo, para participação de alguns rituais”, exemplifica a professora.

Os idosos precisam participar de atividades que deem algum sentido e propósito à sua vida.

Apesar de muito forte, o engajamento religioso não é o único capaz de produzir significado na vida do idoso. A literatura e os órgãos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam o trabalho voluntário como umas das principais ferramentas de construção de sentido de vida. Mas as pesquisas da professora Andrea mostram dados que merecem atenção. Ela pesquisou o trabalho voluntário desenvolvido por idosos no Brasil, nos Estados Unidos e no Japão, e constatou que a maioria dos participantes tem um perfil muito específico: são mulheres, brancas, têm entre 60 e 69 anos, casadas e com família, nível médio e alto de educação e renda, e grande envolvimento em atividades sociais diversas, com destaque a atenção que dedicam aos problemas sociais de onde vivem e do mundo. Mas esse não é o perfil da maioria dos idosos brasileiros. Muitos ainda trabalham para sustentar duas ou três gerações da família, criam os netos e, por isso, não têm tempo para prática do trabalho voluntário formal e regular. “É preciso pensar em formas de reorganizar o terceiro setor brasileiro, para que ele acolha esses idosos”, sugere.

Os idosos se sentem marginalizados. Se a nossa
atitude fosse diferente, poderíamos ajudar as pessoas a
viverem a velhice com mais tranquilidade e felicidade

A participação em atividades sociais diversas significativas é fundamental para envelhecer com saúde e, se associada à prática de exercícios físicos e dieta saudável, é ainda mais eficiente. Mas, segundo a professora Mônica Yassuda, é muito importante nesse processo aceitar o envelhecimento e a velhice, o que ainda é muito difícil para a maioria das pessoas. “A nossa sociedade ainda valoriza muito a juventude e menospreza as características dos velhos, como experiência e sua importância na construção da memória do país, da cidade. Assim, os idosos se sentem marginalizados. Se a nossa atitude fosse diferente, poderíamos ajudar as pessoas a viverem a velhice com mais tranquilidade e felicidade”, pondera.

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