Pesquisa do IP avalia que cuidadoras de abrigo precisam receber apoio psicológico

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Paloma Rodrigues / Agência USP

Cuidadoras de abrigo precisam de auxílio psicológico para conseguirem lidar com as pressões e angústias da exposição à vida das crianças que estão em acolhimento institucional. Segundo a pesquisa de doutorado de Denise Sanchez Careta, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, Quando o ambiente é o abrigo: cuidando das cuidadoras de crianças em acolhimento institucional, essas funcionárias, geralmente mulheres, se identificam com a realidade dos internos, especialmente os sentimentos que envolvem a separação e o abandono. Essa realidade indicava que as cuidadoras não ocupavam o lugar do adulto que cuidava das crianças, pois os dois grupos assemelhavam-se quanto ao sofrimento psíquico.

O quadro de identificação das cuidadoras faz com que as crianças abrigadas não sejam devidamente auxiliadas em seu desenvolvimento. A ausência de diferenciação entre as responsáveis e os menores mostrou a necessidade de cuidar psicologicamente da equipe. O acompanhamento psicológico dessas funcionárias pode melhorar significativamente a qualidade de vida nos abrigos.

Motivada pela teoria do psicanalista inglês Donald W. Winnicott, que afirmava que a presença de um cuidado humano “suficientemente bom” durante todo o início de vida da pessoa poderá facilitar seu crescimento emocional saudável, Denise decidiu atender psicoterapicamente as cuidadoras, ou como ela coloca “cuidar das cuidadoras”.

Denise convidou oito cuidadoras de um abrigo localizado na grande São Paulo a participarem de um grupo de acompanhamento psicológico. “Como elas permaneciam no abrigo por seis dias da semana, decidiu-se que os encontros aconteceriam em grupo,  e lá no próprio local”, explica. A partir disso, acertou-se que seria um encontro psicoterápico semanal, com duas horas de duração cada. O processo durou dois anos, sequencialmente.

Os atendimentos eram guiados pelos fenômenos emergentes no grupo: se discutiam as angústias que afligiam e incomodavam cada uma, um espaço de escuta psicológica. “Eu apenas sentava para escutá-las. As temáticas dos encontros eram sempre criadas por elas”, conta Denise, que completa dizendo que o objetivo principal era oferecer a elas um lugar de compreensão e elaboração dos conflitos, experiências traumáticas e sentimentos em suas vidas. Quanto maior o contato interno, melhor a compreensão e elaboração da própria dor e, consequentemente, melhor a compreensão da dor que atingia as crianças acolhidas.

Denise foi observando as evoluções da vida psíquica das cuidadoras e constata: de uma maneira geral, elas se mostraram mais desenvolvidas emocionalmente no final dos encontros. “Com o passar do tempo, elas alcançavam maior contato com seus próprios sentimentos, ampliando o contato psíquico. Passaram a conter suas emoções, ocupando o lugar de uma cuidadora”, avalia.

Elas perceberam o quanto estavam identificadas com aquelas crianças e misturadas com seus sentimentos. Assim, puderam ver que era necessário um posicionamento mais distante das angústias por que passavam os abrigados para que seu trabalho pudesse ser realizado da melhor maneira.

Benefício para as crianças do abrigo

Um ponto chave na pesquisa é o destaque para a melhora na qualidade de vida dos internos. “Elas reconheciam as necessidades das crianças de maneira individualizada. Exibiam uma proximidade natural com a função materna integrada ao seu trabalho”, aponta Denise.

O ambiente afetivo foi percebido a partir do momento em que a equipe participava dos encontros psicoterápicos. Ao longo do tempo, as relações interpessoais no grupo e no contexto do abrigo passaram a se constituir por relacionamentos mais humanizados.

Os encontros foram tão bem sucedidos que continuaram mesmo após a conclusão da pesquisa. Atualmente, eles são realizados pelo Laboratório de Pesquisa Agregado ao IP, o LAPECRI, sob a coordenação de Denise e da professora Ivonise F. da Motta como coordenadora geral.

O projeto é atraente porque melhora significativamente o ambiente afetivo nos abrigos. A mudança no contexto dos relacionamentos acontece fundamentalmente pela alteração na subjetividade da equipe de cuidadoras, ou seja, o ambiente humano do abrigo.

Mais informações: email denisecareta@uol.com.br

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