Dissertação de pesquisadora da FEA identifica “jornada do herói” em carreiras corporativas

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Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Ao relembrar sua trajetória no mundo dos negócios, presidentes de empresas descrevem o percurso de um herói que aceitou desafios, passou por provações, chegou ao topo do mundo corporativo e cumpriu sua missão com êxito. A conclusão está em pesquisa realizada pela jornalista Maria Teresa Gomes da Silva, descrita em dissertação de mestrado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP. De acordo com o estudo, a grande conquista dos presidentes é o conhecimento acumulado ao longo da vida, que desejam passar adiante para os mais jovens ou outras empresas.

A jornalista analisou 12 dentre 71 entrevistas realizadas com presidentes de empresas quando apresentava um programa de televisão em São Paulo, entre 2007 e 2009. A escolha recaiu sobre os entrevistados com idades entre 58 e 62 anos, que estavam perto da aposentadoria. “Eram pessoas que estavam concluindo a carreira e conseguiam olhar o passado como uma história profissional completa”, conta. “O estudo pretendia detectar se havia um discurso similar quando eles falavam sobre suas carreiras e se seria possível detectar etapas semelhantes no caminho percorrido por eles desde o começo até chegar ao principal cargo das empresas.”

Para analisar as entrevistas, Maria Tereza utilizou o conceito de “jornada do herói”, apresentado pelo sociólogo norte-americano Joseph Campbell no livro O Herói de Mil Faces. “Campbell identificou nas narrativas históricas, mitológicas, religiosas e literárias uma trajetória comum, a de um herói que recebe um chamado, sai de uma vida comum, parte para a aventura, recebe orientações de um mentor, enfrenta provas e desafios e retorna vitorioso”, explica. “O autor resumiu essa trajetória em 17 passos, e o estudo mostra que todos eles estão presentes na forma como os presidentes de empresas relatam sua vida”, diz. A pesquisa foi orientada pela professora Tania Casado, da FEA.

A jornalista acrescentou ao percurso um passo anterior aos 17, o “mundo comum”, presente nos relatos sobre a infância, a escola e as dificuldades financeiras familiares, que ocorrem antes de o herói partir para a aventura. “No caso dos presidentes de empresa, o ’chamado à aventura’ pode ser representado pelo primeiro emprego ou um convite para salvar uma empresa em dificuldades”, diz. Assim como os heróis mitológicos, os presidentes contam com uma espécie de ‘auxílio sobrenatural’ de amuletos, com alguma habilidade específica, saber idiomas, por exemplo, e de um mentor, o primeiro chefe, o pastor da igreja ou uma pessoa mais velha. “Quando aceita o chamado, o herói atravessa o ‘primeiro limiar’, que pode ser visto como uma barreira com guardiões. Os presidentes, por exemplo, passam por entrevista de emprego e precisam convencer o entrevistador que são os mais bem qualificados para o cargo.”

Ventre da baleia

Os presidentes de empresas também atravessam a fase que Campbel chama de “ventre da baleia”, que representa a descoberta de uma força interior e uma espécie de renascimento, com mais força. “Na fala dos presidentes, isso aparece quando eles passam por um período sabático, para estudar ou se preparar para novos desafios, ou quando vão ao chão de fábrica, conversam com os funcionários, pegam informações e voltam ao escritório com mais condições de tomar melhores decisões”, diz. Enquanto está enfrentando desafios, combatendo inimigos, obtendo conquistas, o herói corporativo ainda passa por crises. Uma delas, descrita por Campbell como “encontro com a deusa”, reflete um momento de dúvidas existenciais diante, por exemplo, da necessidade de tomar uma decisão difícil, já “a mulher como tentação” representa as pressões por resultados e as renúncias pessoais; em a “sintonia com o pai”, o momento é de introspecção e autoconhecimento.

A conclusão da tarefa do herói é a “apoteose”, quando o presidente chega a seu ápice dentro da empresa e se considera um exemplo de pessoa bem-sucedida. É quando recebe a “benção última”, o reconhecimento de todo o impacto positivo que trouxe para os negócios. Na última parte do percurso, os presidentes, assim como os heróis da mitologia, podem manifestar ao “recusa do retorno”, quando relutam em aceitar a aposentadoria, ou a volta ao mundo comum. “Alguns partem para a chamada ‘fuga mágica’, deixando o emprego para empreender, montar um novo negócio”, afirma a jornalista. “Outros buscam um ‘resgate com auxílio externo’, procurando consultores para planejar sua vida após a aposentadoria do emprego corporativo.”

Quando aceita a aposentadoria, o herói atravessa o ‘limiar do retorno’, trazendo de volta o símbolo de sua conquista, que, no caso dos presidentes, é o conhecimento acumulado ao longo da vida e que, agora, pode ser passado adiante por meio de palestras, participação em conselhos de administração ou dando mentoria para os mais jovens. “Então, acontece a transição, a fase do ‘senhor de dois mundos’, em que ele tem consciência do legado que está deixando aos que ficaram, como o de ter construído ou salvo uma empresa ou treinado pessoas”, conclui Maria Tereza.

Após analisar as entrevistas dos presidentes de empresas, a jornalista considera que o herói corporativo é um profissional que se destaca dos demais. “É uma pessoa que se destaca na escola ou em processos seletivos, nos negócios tem uma postura atrevida, não é acomodado, gosta de riscos, desafios e de resolver problemas. Apesar de muitas vezes ter a sorte de estar no momento certo e no lugar certo, é persistente, convence outras pessoas a seguirem seus projetos e ultrapassa dificuldades”, aponta. “Ele sempre assume uma postura de protagonista, não deixa a tomada de decisões para os outros e se preocupa com questões éticas e de valores.”

Mais informações: (11) 3294-2969, email mtgomes@usp.br

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