Métodos do turismo ajudam a inserir arqueologia na sociedade, destaca pesquisa do MAE

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Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Técnicas adotadas no turismo podem ser uma forma de diminuir a distância que existe entre as atividades da arqueologia e o cotidiano da sociedade, numa aproximação benéfica, destaca pesquisa do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. O trabalho da arqueóloga Louise Prado Alfonso mostra que o levantamento do potencial turístico e do patrimônio arqueológico das cidades, a realização de oficinas de imagem turística e visitas técnicas a sítios arqueológicos podem levar a população a conhecer seu passado e identificá-lo no presente, e envolvendo-a na mobilização para mudanças no futuro.

Louise, que é especialista em educação patrimonial, constatou na pesquisa que há um grande distanciamento entre a sociedade e a arqueologia, ciência que estuda culturas e modos de vida a partir de vestígios materiais. “Muitas pessoas não sabem da existência de pesquisas arqueológicas no País e até mesmo não possuem informações sobre seus próprios antepassados. Também há muita confusão entre arqueologia e paleontologia”, aponta. “O estudo procurou mostrar formas de aproximação reais. Não adianta o arqueólogo construir narrativas do passado se não fizerem sentido para as pessoas do presente, sem contribuir para melhorar sua qualidade de vida.” A pesquisa é descrita em tese de doutorado defendida no MAE em setembro de 2012, com orientação de Pedro Paulo Abreu Funari, pesquisador do MAE e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Entre as ferramentas do turismo analisadas na pesquisa está o inventário da oferta turística, que verifica o patrimônio cultural e arqueológico existente na cidade ou região e a disponibilidade de hotéis e restaurantes. “Os resultados desse levantamento são analisados em um diagnóstico turístico”, conta a arqueóloga. As conclusões servem de base para oficinas de turismo e imagem turística, que permitem reflexões da comunidade sobre o contexto onde vivem, sobre seus bens patrimoniais e também favorecem o levantamento de novas narrativas sobre as localidades. “Também são realizadas visitas técnicas a sítios arqueológicos e uso de kits de peças arqueológicas, que trazem a experiência prática junto aos bens arqueológicos.”

Para demonstrar as possibilidades de inserção da arqueologia entre a população, Louise relata três projetos em que esteve envolvida nos estados de Alagoas, Bahia e São Paulo. “A legislação ambiental exige de toda a obra de grande impacto um laudo arqueológico e nesse trabalho de pesquisa se insere a educação patrimonial”, aponta. “O objetivo é inserir os bens arqueológicos dentro do quadro dos bens patrimoniais, como o artesanato local, as histórias, edifícios históricos, de modo a valorizar as narrativas da população local e impulsionar a mobilização por melhorias.”

Transformações

Nas cidades de Caetité, Guanambi e Igaporã, no Sudoeste da Bahia, a arqueóloga participou de um trabalho de educação patrimonial que pretendia tornar a comunidade uma agente de transformações. “Uma grande empresa implantou na região uma série de parques eólicos para gerar energia elétrica a partir da força dos ventos”, conta. “Esse projeto levará a mudanças econômicas, sociais e culturais drásticas nas cidades, tanto positivas quanto negativas, para as quais a população não estava preparada para agir.”

As oficinas realizadas nas localidades objetivaram fazer um inventário da oferta turística nos municípios. “O levantamento não se limitou ao patrimônio, hotéis e restaurantes, mas se estendeu a infraestrutura geral, como escolas e serviços de saúde”, diz Louise. A população passou a conhecer melhor suas cidades e pode reivindicar políticas públicas e o apoio da empresa para seus projetos.”

Na mesma região, pesquisas arqueológicas geraram um grande acervo que não tinha lugar para ser guardado nos municípios, em cumprimento às exigências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Todo o material referente aos movimentos migratórios da região do sertão iria ser levado para Ilhéus, no litoral da Bahia, mas os moradores e professores da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) se mobilizaram para fazer parcerias e construir um museu”, aponta a arqueóloga. “Hoje, o planejamento do Museu do Alto Sertão, em Caetité, conta com a contribuição de mais de 40 comunidades, não apenas preservando o patrimônio, mas dialogando com a população.”

Em Lins, no interior de São Paulo, uma iniciativa da prefeitura para desenvolver o turismo levou a criação de um museu com o envolvimento dos moradores. “Uma exposição sobre o arqueólogo amador Kijo Sakai, que fez pesquisas na região, atraiu o interesse da comunidade de descendentes de japoneses e iniciou uma mobilização pela criação de uma instituição cultural”, diz Louise. O trabalho envolveu as populações da terra indígena Icatu, no município de Brauna, que reúne descendentes dos grupos que ocuparam as regiões de Lins e Promissão, imigrantes gregos, trabalhadores rurais e mais de 500 alunos da rede estadual de ensino.

O Museu Histórico e Antropológico de Lins foi inaugurado em agosto de 2012 e em 4 meses recebeu 8 mil visitantes, tornando-se referência de uma nova proposta para a instalação de museus. “Embora a motivação inicial do projeto fosse estimular o turismo, a instituição foi criada pela comunidade e destinada a ela”, conta a arqueóloga. A entrada é gratuita e alunos do ensino médio da cidade atuam como monitores. “A população visita o museu frequentemente e conhece toda a exposição, que insere novos grupos sociais no contexto da história da cidade.”

Mais informações: email louiseturismo@yahoo.com.br, com Louise Prado Alfonso

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