Corações e mentes: InCor presta assistência psicológica a seus pacientes

Publicado em Comportamento, USP Online Destaque por em

Doenças ligadas ao coração estão entre as maiores causas de óbito no mundo todo. Embora ser diagnosticado com uma doença cardíaca não signifique, em absoluto, uma sentença de morte, via de regra paciente e seus familiares sentem-se abalados pelo medo e também pela mudança de vida requerida por certos tratamentos. Por isso, o Instituto do Coração (Incor), pioneiro em ações de humanização do atendimento, mantem um Serviço de Psicologia desde a década de 70.

A organização do serviço do Instituto – que faz parte do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) – ocorreu em 1974, antes mesmo da inauguração do complexo, quando a professora Bellkiss Wilma Romano, que já havia passado pelo Instituto de Psiquiatria (IPq), foi convidada a implantar sua experiência no Incor.

Desde esta época, o Incor vem organizando eventos científicos e oferecendo cursos de especialização e aprimoramento de profissionais do ramo, sempre visando melhorias no acompanhamento psicológico de pacientes e familiares.

Atendimento organizado

De acordo com a supervisora de Ensino e Pesquisa do Serviço, Danielle Missumi Watanabe, os procedimentos iniciais foram essenciais para a estruturação do atendimento que é realizado atualmente. “A professora Bellkiss fez toda a diferença na implantação da psicologia hospitalar no país e aqui no Incor. Em parceria com o antigo NCD [Núcleo de Capacitação e Desenvolvimento], atual Escola de Educação Permanente [EEP], foi oferecida a primeira especialização em psicologia hospitalar, com o formato de residência médica”.

Na equipe atual, o Serviço se divide para ensino, pesquisa e assistência. Nesta última, há rodízio de profissionais nos pronto-socorros, enquanto no ambulatório, nas enfermarias e UTIs, onde os psicólogos atuam de forma direta e interdisciplinar com os pacientes, através de reuniões e discussões diárias sobre os quadros encontrados. O núcleo é composto por um diretor geral, quatro supervisores (enfermaria, ambulatório, ensino e pesquisa, brinquedoteca hospitalar) mais nove psicólogos assistenciais.

Danielle, que trabalhou com o público entre 2005 e 2011, explica que as atuações dos profissionais têm de ser específicas para cada caso. “Existe uma espécie de orientação padrão, como em qualquer área, para o início das abordagens com o paciente ou com a família, mas nosso diferencial é fornecer uma atenção personalizada, porque cada pessoa tem uma necessidade diferente”. Segundo ela, isto faz com que não haja apenas uma forma de acompanhar os atendidos, mas várias, conforme fatores como doença, tratamento realizado, personalidade e história de vida do paciente.

“Além da demanda espontânea que recebemos, pela experiência e treinamento podemos avaliar a condição psicológica de uma pessoa através da observação no dia-a-dia e também analisar a melhor maneira de tentar uma aproximação para oferecer os devidos cuidados, como por exemplo um tratamento preventivo para pacientes com quadros de obesidade ou diabetes”.

A supervisora do Incor identifica outros sinais considerados típicos para a constatação de que o paciente pode precisar de auxílio profissional. “Em alguns momentos, a pessoa pode apresentar um estado de ansiedade, choro constante, dificuldade de relacionamento e até mesmo recusa dos tratamentos propostos, sintomas que podem indicar um quadro depressivo, ansioso, ou de não adaptação à situação”.

A pessoa pode apresentar um estado de ansiedade, choro constante, dificuldade de relacionamento e até mesmo recusa dos tratamentos propostos.

Ela conta que, em geral, os atendidos aceitam bem as intervenções dos psicólogos do hospital, chegando a encarar a situação como parte do tratamento da patologia física propriamente dita. O que não quer dizer que não haja recusas à aproximação dos membros da equipe, que naturalmente respeitam a vontade do paciente. “Acredito que isso aconteça mais em função da dificuldade de compreensão da função do psicólogo, tanto por parte do paciente quanto da família, por se tratar de uma profissão ainda elitizada no Brasil”, opina.

O coração no imaginário

Outro fator que, para Danielle, torna mais delicado o trabalho psicológico realizado no Incor, é o fato de que as doenças tratadas são basicamente referentes ao coração. Para a psicóloga, há dois aspectos principais a se considerar na abordagem de um paciente com problemas cardíacos. “Primeiro, como se sabe, se trata de um órgão vital, cujo comprometimento afeta completamente a vida do paciente, ou chega a causar o óbito. Em segundo lugar, existe um simbolismo muito grande a respeito do coração”, pontua.

Assim, por mais que, racionalmente, as pessoas saibam que informações relativas a sentimentos, entes queridos, paixões em geral, estão ligadas ao cérebro, ideias como ‘mora no coração’ ou ‘é de partir o coração’ geram uma maior preocupação com patologias deste órgão.

Na prática, a vida de um portador de doenças cardíacas também pode ser bastante modificada, conforme detalha. “Uma mulher, por exemplo, que sofrer de uma valvopatia [doença que afeta as válvulas cardíacas] em decorrência de uma febre reumática, terá uma restrição à gravidez, e essa impossibilidade pode prejudicar o seu estado psicológico”. Outro caso citado pela supervisora se dá quando ocorre infarto de miocárdio, condição relacionada a hábitos do paciente, e que o obrigará a promover mudanças no seu comportamento.

Ensino e pesquisa do Incor

Os cursos periodicamente ministrados são parte importante do Serviço de Psicologia do Incor. O de especialização tem carga-horária de 570 horas, durante um ano. Já um curso de aprimoramento tem duração de 1.760 horas, também em um ano – neste último caso é possível o pleiteamento de uma bolsa de R$ 790,00 para a Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), do Governo do Estado de São Paulo.

Sob a supervisão de Danielle, também são desenvolvidas pesquisas voltadas para a compreensão e melhoria dos serviços prestados. “Um exemplo de trabalho em andamento é um estudo que poderá nos permitir analisar se, e de que maneira, um infarto agudo do miocárdio sofrido por um paciente pode levá-lo a apresentar transtorno de estresse pós-traumático”, detalha.

O Serviço também é aberto para participação de estudantes. Alunos de psicologia podem fazer estágio na brinquedoteca, e há também vagas para iniciação científica e pesquisas de pós-graduação. A procura, porém, tem sido baixa. No ano de 2011, houve apenas um estudante de iniciação no Serviço, enquanto em todo o ano de 2012 não houve ocorrência. “Para mim, há dois motivos principais para isso”, comenta Danielle, “a carga horária integral de alguns cursos de Psicologia, que na prática impede os alunos de se envolverem em outros projetos, e a burocracia envolvida na aprovação de uma pesquisa, já que a demora acaba levando o interessado a desistir ou procurar outro local”, sugere Daniela.

.