Nova edição da Revista USP traz dossiê sobre alcoolismo

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Do Jornal da USP

O crescente consumo de bebidas alcoólicas entre os jovens e a constatação de que o uso do álcool é o principal fator de risco para a carga de doenças que atinge os brasileiros justificam o primeiro dossiê da Revista USP deste ano. Especialistas do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e da Faculdade de Saúde Pública (FSP), entre outras unidades da
, discutem o alcoolismo, tema de interesse que exige não só a reflexão da sociedade brasileira, mas o desenvolvimento de projetos e ações para conter o seu consumo abusivo e prejudicial. “O tema alcoolismo exige uma profunda reflexão sobre o estado atual da vida socioeconômica, cultural e de saúde”, observa o editor da Revista USP, jornalista Francisco Costa.

Alarme

O resultado das pesquisas desenvolvidas pelos especialistas da USP revela uma situação alarmante. Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Programa do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria (IPq) do HC, e Camila Magalhães Silveira, pesquisadora do mesmo programa, observaram os problemas comportamentais e os danos à saúde provocados pelo abuso na ingestão do álcool. E constataram que as mudanças ocorridas no Brasil na última década – aumento da urbanização, dos recursos educacionais, da expectativa de vida, redução dos níveis de pobreza e das taxas de natalidade e mortalidade – provocaram uma transição epidemiológica com o aumento na carga de doenças crônicas não comunicáveis, em substituição às doenças infectocontagiosas.

Os pesquisadores destacam dados do projeto Global Burden of Disease (GBD), que reúne estudiosos de instituições e universidades de todo o mundo.“No Brasil, as doenças crônicas e degenerativas foram responsáveis por 66% da carga nacional de doenças, sendo que as de ordem neuropsiquiátrica ocuparam o primeiro lugar nesse ranking, cerca de 19%. O uso do álcool mostrou ser o principal fator de risco para a carga de doenças, contabilizando 11% dos anos de vida perdidos por incapacitação, com maiores porcentagens para homens, 17%, do que para mulheres, 4%.”

Andrade e Camila esclarecem que o índice encontrado para os homens brasileiros esteve atrás apenas do detectado entre os homens russos. Esse estudo comparativo sobre o grau de incapacitação decorrente do uso do álcool foi realizado em dez países: Rússia, China, Alemanha, Estados Unidos, Tailândia, África do Sul, Japão, Índia, Nigéria e Brasil.

Entre as mulheres, o achado foi igualmente preocupante: as brasileiras ocuparam o terceiro lugar, depois do índice para mulheres russas e americanas.

Os pesquisadores lembram ainda que os danos provocados pelo uso indevido do álcool repercutem nas famílias dos usuários e em toda a sociedade. “Nesse sentido, vale citar que os custos decorrentes do consumo de álcool, no ano de 2007, com base no banco de dados Datasus, foram de aproximadamente R$ 8,5 bilhões, sendo que 80% desse recurso foi destinado ao público masculino, entre 40 e 49 anos de idade, grupo de maior participação no mercado de trabalho brasileiro.”

Uso e abuso

Os problemas que o consumo do álcool representa para a direção veicular são abordados no artigo de Maria Helena de Mello Jorge, professora da FSP, e Flavio Emir Adura, diretor científico da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

Os pesquisadores apresentam o álcool como fator de risco para os acidentes de trânsito no Brasil. “O panorama epidemiológico revela que o número de mortes é alto, projetando taxas de cerca de 20 óbitos para cada 100 mil habitantes, valor elevado, principalmente se comparado com outros países”, destacam. “Essas mortes ocorrem, predominantemente, em uma população jovem, o que vai repercutir pesadamente no indicador de saúde Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP), o que, por sua vez, vai influenciar a esperança de vida do País.”

A recomendação de Maria Helena e Flavio Adura nesse trabalho é o estabelecimento de políticas públicas em defesa da sociedade, que, por se sobreporem ao interesse individual, devem ser incentivadas. “Trata-se de um tema prioritário, visto que não só vem ceifando vidas, como também é gerador de sequelas não poucas vezes irreversíveis. Os acidentes de trânsito constituem pesado fardo econômico e social resultante da soma de prejuízos materiais, gastos médicos e os referentes à perda de produtividade pessoal.”

Victor Wünsch Filho, professor do Departamento de Epidemiologia da FSP, aborda, em seu artigo, o consumo de bebidas alcoólicas e o risco de câncer. “Cerca de 2,5 milhões de mortes no mundo ocorrem devido ao consumo de bebidas alcoólicas”, observa. “O álcool é reconhecido como cancerígeno para os humanos pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer da Organização Mundial da Saúde. Há evidências de associação entre consumo de bebidas alcoólicas e aumento do risco dos tumores de cavidade oral, faringe, laringe, esôfago, fígado, colorretal e mama feminina. Considerando a alta incidência, o câncer de mama é o principal câncer atribuível ao álcool entre as mulheres.”

Rachelle Balbinot, pós-doutoranda da FSP, e Sueli Gandolfi Dallari, coordenadora científica do Núcleo de Pesquisas em Direito Sanitário da USP, traçam um panorama do tratamento do alcoolismo no direito brasileiro. “A evolução do tratamento jurídico dado ao alcoolismo permite observar as nuances do conceito. Assim, para o Código Civil, os ébrios habituais, os viciados em tóxicos e os que, por deficiência mental, tenham o discernimento reduzido são relativamente incapazes. Nesses casos, há a possibilidade de gerar-se uma ação declaratória de incapacidade episódica. Já a embriaguez fortuita ou patológica pode gerar a incapacidade absoluta circunstancial.”

As pesquisadoras Rachelle e Sueli destacam que um estudo recente, publicado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), considera o alcoolismo um dos mais graves problemas que assolam as Américas. No Brasil, as mudanças no perfil de consumo, especialmente dos adolescentes, são preocupantes. “Assim, o Estado de São Paulo promulgou a lei de 19 de outubro de 2011, que proíbe vender, ofertar, fornecer, entregar e permitir o consumo de bebida alcoólica, ainda que gratuitamente, aos menores de 18 anos.”

Segundo as pesquisadoras, existe uma preocupação do governo brasileiro em conter o consumo de álcool. “Há a crescente adoção de políticas públicas destinadas à prevenção do problema e suas consequências, seja na legislação sobre a criança e o adolescente ou sobre o trânsito quanto ao tratamento do alcoolista, com reflexos inclusive na legislação trabalhista.”

Um hábito milenar

O dossiê “Alcoolismo” da Revista USP também enfoca a cultura do consumo de bebidas alcoólicas como hábito milenar. No artigo “Arte e Vinho”, a professora Elza Ajzenberg, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, lembra que o vinho faz parte da cultura desde os primeiros registros históricos. “Está associado à mitologia, firmando o estilo de vida mediterrâneo.”

Evidências da relação entre o consumo de bebidas alcoólicas e benefícios à saúde, segundo diferenças na sua composição, são apresentadas por pesquisadoras da FSP. Já o professor da ECA Ricardo Alexino Ferreira analisa a publicidade das bebidas alcoólicas. Afirma que a comunicação midiática, especialmente a publicidade, capta as construções mitológicas e as transforma em peças publicitárias que impactam o público e reforçam o inconsciente coletivo.

Mais informações: (11) 3091-4403

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