Tudo tirado

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“Só Deus é o dono da vida. D’Ele a origem, e só Ele pode decidir o seu fim”, disse Dom Paulo na homilia. “O próprio Cristo quis sentir a ternura da mãe e o calor da família ao nascer. E mesmo depois de morto o cadáver foi devolvido à mãe e aos amigos e familiares.”

O lamento ecoaria na carta que dona Egle enviaria ao papa Paulo VI no dia 20 de abril, Sexta-Feira Santa. “Quem vos escreve é uma mulher do povo a quem lhe mataram o primogênito dos seis filhos, recusando-lhe até mesmo a entrega desse corpo. Tudo me foi tirado: um filho, o consolo de vê-lo após a morte e o direito mais legítimo de o sepultar”, chorava a mãe.

“Ele era uma pessoa queridíssima, o mais velho dos seis filhos. Éramos uma escadinha de irmãos. Tinha uma inteligência privilegiada, um ‘sabe-tudo’, mas sem nenhum pedantismo”, relata Maria Cristina. “Os meses que se seguiram ao seu assassinato foram de profunda tristeza para todos em casa. Minha irmã caçula, de 10 anos, só conseguia dormir com um radinho colado ao ouvido, escutando música bem baixinho. Do contrário, dizia ela, ‘ouvia gritos’.”

Mesmo que seus assassinos soubessem quem era Alexandre, onde estudava e o endereço de seus pais, o corpo foi enterrado como indigente no cemitério de Perus. Somente dez anos depois, em 1983, com a descoberta da vala clandestina de Perus, podia-se tentar reconhecer seus restos mortais.

“A identificação só foi possível porque, um ano antes de ser morto, o Alexandre me deu o molde em gesso de sua arcada dentária. Ele estava fazendo um tratamento e, meio de brincadeira, pediu que eu guardasse aquele presente ‘de irmão para irmã’”, relembra Maria Cristina. “Levamos o corpo do Lê para o cemitério de Sorocaba, onde está ‘à espera de um tempo de justiça’”, diz a irmã.

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