Estudiosos africanos falam sobre o próprio continente nos ‘Círculos Áfricas’

Publicado em Cultura, USP Online Destaque por em

Ouvir sobre África pode ser mais enriquecedor quando a voz que fala é a dos próprios africanos.  É deste princípio que parte o projeto Círculos Áfricas, em que professores, pesquisadores e demais africanos residentes no Brasil, mas que de alguma forma se mantêm ligados ao continente, compartilham ideias. Estas vão de suas de pesquisas sobre a África, passando por temas de interesse naquele território, até a trajetória pessoal de alguns deles.

A iniciativa é uma realização da ONG Casa das Áfricas, em parceria com o Centro de Estudos Africanos (CEA) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e o Projeto Metuia, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (Fofito) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

O primeiro círculo aconteceu em 2012 como continuação do projeto “Os Africanistas no Brasil”, que convidava apenas pesquisadores de África para debaterem o estudo do continente africano no Brasil. O Círculos Áfricas pretende-se mais abrangente. “A ideia é aprender com os africanos que vivem no Brasil, que constroem uma história aqui dentro ou fora da academia, porque pensamos em uma construção intelectual, artística, de processos econômicos”, explica Denise Dias Barros, professora do Fofito e  fundadora tanto da Casa das Áfricas quanto do Projeto Metuia.

A ideia é aprender com os africanos que vivem no Brasil, que constroem uma história dentro ou fora da academia.

Os convidados dos círculos têm a liberdade de escolher o tema que desejam abordar na conversa. Eles são incentivados também a contar um pouco sobre sua história de vida, percurso intelectual e artístico. Denise diz que o círculo busca proporcionar um momento em que brasileiros e africanos tenham uma escuta comum, ao mesmo tempo em que visa à valorização dos africanos e de um espaço que fale de África.

A professora Tânia Celestino de Macêdo, uma das diretoras do CEA, acredita que a iniciativa é importante por ser “uma forma de lançar luzes diversas não só sobre a pesquisa de África, mas também sobre os próprios africanos”. Isso porque, segundo ela, as pessoas têm uma visão do continente africano normalmente ligada a desastres e dos africanos como aqueles “seres da margem”. Denise completa que o debate sobre a África costuma tocar em múltiplas questões de desqualificação: “a discussão sobre África passa por uma reflexão sobre desqualificação dos espaços, das sociedades, dos africanos e dos intelectuais africanos”.

O formato do projeto em círculos, que possibilita uma relação entre participantes e espaços de diálogo mais horizontais, foi inspirado nas proposições do educador Paulo Freire de que “aprendemos juntos, caminhamos em um processo de conhecimento e este conhecimento se faz uns com os outros”, explica Denise.

Ambas as professoras destacam que a opção por este modelo está em consonância com um processo de socialização muito presente em diversas sociedades africanas, ondeo conhecimento é transmitido entre indivíduos através da observação, escuta, e diálogo – e não necessariamente sistematizado em termos piramidais. “É uma visão muito próxima à visão de mundo do africano, que não vê o outro como um ser solitário, mas como um indivíduo ligado à comunidade”, explica Tânia.

É uma visão muito próxima à visão de mundo do africano, que não vê o outro como um ser solitário, mas como um indivíduo ligado à comunidade.

Denise ressalta, no entanto, que embora o projeto seja inspirado na busca pela dialogia e quebra de preconceitos propostas por Paulo Freire, os círculos não seguem precisamente sua metodologia, mesmo porque “é tudo muito bonito de falar, mas difícil de realizar, principalmente porque vivemos em um mundo hierarquizado”, aponta a professora.

O projeto é também uma forma de alimentar e valorizar a Lei 10.639/03, ampliada pela Lei 11.645/08, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras, bem como indígena, em todas as escolas, do ensino fundamental ao médio. Denise conta que, embora a Casa das Áfricas tenha surgido antes da lei, a ONG nasceu de pessoas que, estando em instituições de ensino, sentiam dificuldade de lidar, no interior delas, com África como uma temática e campo de estudo. “A própria USP possui iniciativas, mas elas são muito tímidas para o tamanho do continente africano, das relações e importância da África no Brasil. Acho que a Universidade carece de um projeto tipo Pró-África, com a envergadura do já existente Prolam [Programa de Pós-Graduação Interunidades em Integração da América Latina]”, sugere Denise.

Participação

Os encontros do Círculos Áfricas são abertos e destinados ao público em geral. Com isso, o projeto procura também aproximar a universidade das pessoas: “às vezes temos grandes pesquisadores, mas falando com e como o mais comum dos mortais”, aponta Tânia. A professora vê o projeto como uma contribuição para desmitificar o papel da universidade e do saber, muitas vezes tidos como algo distante do cotidiano de quem está fora da academia.

Os círculos têm acontecido sempre em espaços públicos, a partir de parcerias com instituições como a Oficina Cultural Oswald de Andrade ou a Biblioteca Alceu Amoroso Lima. “Ele pretende ser um acontecimento cultural, em um espaço onde o debate não é o da metodologia de pesquisa ou o da reflexão em termos da produção acadêmica  mas sim de um campo de difusão”, explica Denise. “Já aconteceu, por exemplo, do convidado ser um professor de geografia do ensino médio que incluiu o círculo como uma aula curricular da sala, então veio uma turma inteira participar da discussão”, complementa.

As atividades dos Círculos Áfricas serão retomadas no dia 3 de abril com o tema “Kaydara: literatura, oralidade e infância”.Kaydara é um conto, parte do patrimônio literário africano, escrito por Amadou Hampâté Bâ a partir dos contos iniciáticos da sociedade fula. O convidado do primeiro círculo de 2013 será Aboua Kumassi Koffi Blaise, que traçou, em seu doutorado no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH, um paralelo entre Kaydara e a obra Macunaíma, de Mário de Andrade.

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