Pesquisadoras da FFLCH lançam livro sobre cultura e artes da Cidade Tiradentes

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Leila Kiyomura / Jornal da USP

As artes e os artistas nas ruas e espaços culturais da Cidade Tiradentes (Zona Leste de São Paulo) são o tema do livro Lá do Leste – Uma etnografia audiovisual compartilhada, organizado por Carolina Caffé e Rose Satiko Gitirana Hikiji, lançado pela Editora Humanitas, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A obra, que une antropologia, urbanismo, arquitetura, história e arte, é o resultado de uma pesquisa iniciada em 2009 na Cidade Tiradentes.

O projeto também deu origem a dois curtas, dirigidos por Carolina e Rose, Lá do Leste e A Arte e a Rua. Carolina é cientista social, documentarista e pesquisadora do Instituto Pólis. Rose é antropóloga, documentarista e professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “O intuito do projeto Mapa das Artes, que estamos desenvolvendo, é fazer com que as produções e espaços culturais do distrito possam ser conhecidos e valorizados pelos seus próprios habitantes, fortalecendo, assim, a cidadania, a cultura local, a economia solidária, a produção colaborativa em rede, a defesa do espaço público e do bem comum e a comunicação entre artistas, produtores locais e moradores”, explica Rose.

No decorrer de quatro anos, as pesquisadoras foram conhecendo a Cidade Tiradentes a partir de seus artistas e, como elas próprias observam, construíram um mosaico de imagens, sons, cores, formas, ideias, frases, sonhos, dúvidas e conflitos. “As peças desse mosaico não são fixas. Nem finitas. Mudam de lugar conforme o ponto a partir do qual olhamos o bairro”, observam. Rose e Carolina entraram na Cidade Tiradentes dispostas a ouvir histórias, a sentir a realidade dos artistas. Participaram das festas de hip hop. Acompanharam os grafiteiros dando vida às paredes com seus sonhos e emoções. E foram acolhidas com a sinceridade da comunidade. Os artistas tornaram-se os pesquisadores e também os atores do filme, porém contando suas histórias e, muitas vezes, filmando o seu cotidiano. “Nós entregamos câmeras pequenas, tipo bastão, para que eles documentassem o seu dia a dia na família, no trabalho e nas ruas”, diz Rose.

Os artistas pesquisadores, segundo Rose e Carolina, nasceram, em sua maioria, na década de 1980. “Eles têm forte vínculo com o hip hop. Tal movimento, que hoje não é hegemônico no distrito e que experimenta a invasão do funk, é fortemente representado no ‘Mapa das Artes’”, explica Carolina. “A significativa presença dos grupos artísticos mais politizados e ligados ao hip hop pode ser entendida como resultado direto da relação dos pesquisadores-moradores com a história e as transformações do distrito, em especial da arte de rua, da organização das práticas culturais e da sociabilidade nos espaços públicos.”

Histórias

Daniel Hylario é o protagonista do livro e dos curtas. Quer ver a Cidade Tiradentes com projetos educacionais, culturais, sociais, econômicos e ambientais que garantam uma vida com qualidade. Seu idealismo não cabe no seu 1,92 metro de altura. Tem 30 anos de muitas histórias e poesias. Além de colaborar com as ONGs da Cidade Tiradentes, ele faz questão de trabalhar na região também. Com a colaboração de Kelly Cristina de Jesus, tem uma loja de roupas que funciona junto com um salão de cabeleireira. Hylario é exímio em tranças africanas. Do alto do Morro do Urubu, o estudante de História, pesquisador e poeta Hylario mostra a Cidade Tiradentes, onde vive desde os 5 anos. A visão é a do maior conjunto habitacional da América Latina, com 220 mil moradores.

Há 30 anos, os prédios começaram a se enfileirar um atrás do outro, todos parecidos, devastando a mata atlântica da então Fazenda Santa Etelvina. “Há urbanistas que dizem que este é o fim da cidade”, diz Hylario. “Mas eu digo que este é o começo da cidade.” O fim e o começo que ficam a 35 quilômetros da Praça da Sé. “Cidade Tiradentes nasceu como um bairro-dormitório para abrigar as pessoas que eram atingidas por obras públicas”, conta. “A minha família veio da Mooca há 25 anos. Na época, aqui era o lugar onde aqueles que eram empurrados pelo crescimento da cidade vinham morar. Mas o bairro-dormitório foi se desenvolvendo para atender à população. Os moradores foram se mobilizando com uma cultura e arte próprias.”

No filme A arte e a rua, ele fala sobre a condição social das famílias: “Você tem pouco, então tem que usar a roupa do seu irmão. Você é maior, então passa para o seu irmão mais novo. Isso as pessoas falam que é união, mas isso é condição social que gera uma possibilidade de você contribuir pro outro, não porque você queira, é uma condição que até te oprime, assim… Imagina, tem o déficit habitacional e aí você namora e a sua namoradinha tá grávida e você não tem condições de pagar um aluguel. Aí você coloca seu irmão pra sala e pega o quarto. A gente tem algo em comum que nos une, sabe? Mas também tem muita coisa que nos separa. Temos muros invisíveis”.

Hylario acha que as pessoas confundem o respeito às diferenças. “Respeitar não é ser igual ao outro. Trançar ou alisar os cabelos para ficar como um africano ou um japonês. Respeito é algo muito maior.” Ele sonha em ser ele próprio, chegar junto com as pessoas que têm a mesma origem que ele, sem ser caricatura. Planeja casar com a namorada Karina Apolinário, estudante de Direito do Mackenzie, e ter muitos filhos. “Quero estar junto dos amigos, da vizinhança, da família, mas não tem opção, porque você quer estar junto, caminhando, lutando e planejando.” O filme e o livro Lá do Leste, podem ser baixados gratuitamente na página.

Mais informações: site www.ladoleste.org

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