Estudo do IP analisa indústria cultural e violência no jornalismo policial brasileiro

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Maria Marta Cursino / Serviço de Comunicação do IP

A mídia exerce grande influência na formação da opinião pública e, justamente, por interferir direta ou indiretamente na vida das pessoas, acaba também funcionando como um indicador relevante de que tipo de material cultural a população tem como tendência de consumo. A pesquisa Jornalismo Policial: indústria cultural e violência, realizada no Instituto de Psicologia da USP, tem como objetivo analisar a relação estabelecida entre os brasileiros e a violência apresentada nos jornais policiais exibidos pela TV. Orientado pelo professor Pedro Fernando da Silva, Davi Mamblona Marques Romão procura em seu estudo identificar a estrutura básica do jornalismo policial a partir de algumas edições de programas do gênero.

Como material de análise foram selecionados três programas com base na audiência e no foco que dão à violência: Brasil Urgente, Cidade Alerta e Balanço Geral. A partir daí, Romão afirma que esses programas podem ser divididos em três categorias que se repetem em quase todas as reportagens de forma estereotipada: o uso de recursos sensacionalistas para a captação e manutenção da atenção dos telespectadores, a visão de mundo ostentada por esse jornalismo policial e a construção de uma aparência de credibilidade e autoridade para essa visão de mundo apresentada. “Esses programas basicamente apresentam um discurso de revolta, de indignação, de onde você tira imediatamente a ideia de que se quer mudança, de que aquela situação é inaceitável e de que é necessário controlar aquela violência. Mas se você pensar para além do imediato, o efeito desse discurso é o de estagnação”.

A forma como a violência é tratada pela mídia brasileira tem um papel importante ao construir um bode expiatório para o qual é dirigida a raiva gerada socialmente. “O jornalismo Policial apresenta os ‘criminosos’ e ‘vagabundos’ como a fonte de todos os problemas que nos atingem. A estrutura do programa precisa direcionar para longe de si a raiva que ela mesma gera e o criminoso recebe em si tudo o que nossa ordem social nos obriga a reprimir”, explica Romão. Como esses criminosos são, em sua maioria, jovens do sexo masculino, pobres e pardos, os preconceitos do Jornalismo Policial misturam-se com preconceitos de classe historicamente presentes em nossa sociedade.

Encarnando o papel de autoridade, falando assertivamente, elevando o volume da voz, induzindo o público a concordar, os apresentadores constroem um cenário no qual ocupam a posição de referência moral da humanidade. “Apresentam uma visão de mundo cristalizada, que não permite qualquer tipo de questionamento ou tensão. É como se a verdade sobre o mundo fosse entregue em domicílio através da televisão. Nesse sentido, temos como saldo pessoas com uma subjetividade completamente dependente, incapaz de ver a si mesmas participando ativamente dos processos políticos que as afetam”, declara o pesquisador.

Dessa forma, o Jornalismo Policial parece acentuar a tendência socialmente propagada de sentir-se impotente frente aos problemas sociais. “A reflexão crítica é abandonada e, em seu lugar, aparece o conformismo”, declara o pesquisador. Romão assegura que os programas resumem-se a apresentar um quadro terrível da realidade e a defender que para a segurança da população são necessárias leis mais fortes e melhor policiamento. “Estas ideias não são discutidas ou questionadas em nenhum momento. O telespectador grudado no discurso do Jornalismo Policial chega ao fim da transmissão sem nada que o ajude a compreender melhor a questão”.

Além disso, depois de ter a audiência conquistada por meio da centralidade das cenas de violência, sofrimento e dor, as preocupações jornalísticas parecem deixar de fazer sentido. O Jornalismo Policial encarna a tendência à indiscriminação entre jornalismo e entretenimento, priorizando mais a sedução de seu público do que a informação. Enquanto os programas se autodenominam programas de jornalismo, eles ocupam o espaço social destinado exatamente à apresentação e reflexão dos fenômenos atuais. Seu formato, no entanto, produz apatia, conformidade e a manutenção dos problemas existentes. “O Jornalismo Policial se declara um programa de jornalismo, não de entretenimento. Mas suas notícias não têm a menor pretensão de discutir de forma aprofundada algum aspecto de nossa realidade”, menciona Romão.

Para o pesquisador o jornalismo policial no Brasil retrata a violência de forma reduzida, através da moralização e simplificação do problema e, ao apontar soluções superficiais e encarnar o judiciário ao definir culpados com base em preconceitos, omite parte da realidade do mundo externo aos programas do gênero. “O jornalismo policial é mais uma ocasião na qual os indivíduos buscam mecanismos compensatórios para suas frustrações e formas de expressão para a agressividade contida. Diante dessa necessidade, os programas do gênero vêm lhe oferecer exatamente o que deseja: entretenimento revestido de noticiário.”, afirma.

Mais informações: (11) 3091-4178

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