1 – Buscas e fugas

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Toca o celular da repórter. Ligação a cobrar:

– Eu fugi. Não fica triste comigo – anuncia o guri do outro lado da linha.

Não era a primeira vez que o guri ligava para a repórter, agora usando um celular emprestado por uma vizinha, e também não era a primeira vez que fugia. Nesse dia de meados de 2012, Felipe telefonou à sua amiga Letícia – uma das poucas, pouquíssimas pessoas a se preocupar de fato com ele, a ser toda atenção na escuta de sua história, a se alegrar com as pequenas conquistas, a sofrer com os muitos tropeços em pedras sempre presentes – para avisar que abandonara a fazenda terapêutica na qual estava internado em nova tentativa de se tratar da dependência do crack. Regras demais a cumprir, pedra nenhuma a consumir, e o que deveria ser um tratamento de nove meses evaporou-se numa cerca transposta em escassos dez dias.

Três anos e meio antes, o guri – cujo nome verdadeiro, claro, não é Felipe – ainda não sabia quem era a repórter Letícia Duarte, do diário Zero Hora, de Porto Alegre, e muito menos que ela já conhecia praticamente toda a sua história. Numa tarde quente de março de 2009, ele fugia dela pela primeira vez. A repórter acompanhava a mãe de Felipe na busca pelo filho caçula, então com 11 anos, em meio aos casebres da Vila dos Papeleiros (“vila”, em porto-alegrês, designa favela), próxima ao Centro da cidade. A mãe soubera por uma vizinha que o guri estava pelas redondezas.

Felipe já ganhava as ruas desde os cinco anos de idade, mas naquela tarde Maria (o nome da mãe também foi trocado) estava decidida a resgatá-lo e levá-lo para Torres, cidade litorânea na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. O novo endereço representava também a esperança de uma nova existência. Na vila, Maria conseguiu bater o olho no guri pela primeira vez desde seu último sumiço, um ano antes – mas Felipe apressou o passo, correu em direção a uma avenida movimentada e desapareceu. Cinco dias depois, a mãe deixou Porto Alegre sem o caçula. Levava só um dos seis filhos, um neto e a gata Anjinha.

A cena da primeira busca da repórter, a última da mãe antes da mudança, está descrita com o primor das melhores reportagens na abertura do caderno Filho da rua, que Zero Hora encartou em sua edição do domingo 17 de junho de 2012. O parágrafo que encerra o texto de abertura da reportagem narra a partida da mãe e o parto que motivou o trabalho de Letícia: “(Maria) Foge da realidade no dia da mentira, 1º de abril de 2009. Desde então, a criança não tem mais uma casa para voltar. A cidade dá à luz oficialmente mais um menino de rua.”

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