8 – A coisa e seu nome

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A premiada jornalista que crê na fundamental dimensão social que a profissão precisa exercer já teve lá suas crises com o ofício. Numa delas, em 2006, Letícia tirou uma espécie de “ano sabático” e foi a Moçambique para trabalhar como voluntária dando aulas de português num projeto de formação de professores. Parte da razão da viagem estava na pergunta sobre se o jornalismo é mesmo o campo para exercer a vontade de ser agente de mudança, parte estava em sua “sede de mundo” e no desejo de conhecer outras culturas e sistemas de pensamento. Sapere aude, a propósito, ela tem tatuado no lado interno do pulso direito, como um lembrete literalmente sempre à mão. O mote, que Immanuel Kant teria buscado em Horácio, pode ser traduzido como “ousar saber” – ou, na versão que Kant definiu como “o lema do esclarecimento”: “tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento”.

Em Moçambique, Letícia morava num lugarejo no meio do mato, sem luz elétrica ou água gelada na luta contra o enorme calor. Para ir ao supermercado, a cidade mais próxima ficava a quatro horas de viagem. Aquele foi também um tempo para sentir saudade do jornalismo e “meio que fazer as pazes” com a profissão, como ela define. A reflexão sobre o que viu e viveu nessa experiência intensa embasa sua dissertação de mestrado em Sociologia, que defendeu no final de março na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os professores da banca a aprovaram com louvor e recomendaram a publicação do trabalho.

Na África, a jornalista envolveu-se do universo descrito pelo escritor moçambicano Mia Couto (“ele lê a alma das pessoas”, diz, num diagnóstico que talvez possa aplicar a si mesma), mas só teve a chance de vê-lo e ouvi-lo ao vivo na conferência que Mia fez no encerramento do ciclo Fronteiras do Pensamento, em novembro do ano passado, em Porto Alegre. O fantástico contador de histórias que descobriu em autores como Guimarães Rosa que português é também língua de encantamento do mundo lembrou de sua passagem por Natal, onde se hospedou num hotel que ficava de frente para uma favela.

Em nome do politicamente correto, Mia revelou ter aprendido que, em lugar de favela, “é melhor dizer ‘periferia pobre’”. “Acho estranhas essas regras. O que para mim seria correto não era exatamente a palavra: o que seria correto era não existirem favelas”, disse, para muitos aplausos da plateia. A qualquer cidadão com senso de justiça pareceria também mais correto que não existisse uma realidade que precisasse ser nomeada pela expressão “criança de rua”. Enquanto existirem, a realidade e o nome que lhe damos, será necessário não escamotear a verdade com palavrório polido; será necessário deixar de fingir que não enxergamos os Felipes à nossa frente; será necessário contar sua história; será necessário que repórteres como Letícia Duarte a contem.
Será necessário desacomodar.

A íntegra da reportagem “Filho da rua” e um vídeo sobre a história de Felipe estão disponíveis no site de Zero Hora: http://zerohora.clicrbs.com.br

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