Pesquisa aponta perda de autonomia de professores em unificação curricular

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Lara Deus / Agência USP de Notícias

A política educacional de unificação dos currículos escolares implantada pelo governo estadual paulista em 2008 foi analisada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP pelo geógrafo, pedagogo e coordenador pedagógico Edjailson Bezerra da Silva. A conclusão de sua dissertação de mestrado foi que a medida deixou o papel do professor em segundo plano.

A Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (SEE-SP), em 2008, implementou nas escolas estaduais paulistas a Proposta Curricular do Estado de São Paulo, que no mesmo ano, deixou de ser proposta e passou a ser o Currículo oficial. Ela foi elaborada sem a participação dos professores da rede e sua primeira etapa consistia em uma recuperação como forma de uniformizar a base teórica dos alunos. Esta fase era completamente guiada por uma apostila em forma de jornal, que deveria ser aplicada pelos professores em 42 dias e, no final deste período, haveria uma prova unificada de avaliação. Silva foi informado de que “a escola que não fosse bem avaliada poderia ter complicações”. Depois, apostilas para todas as séries e disciplinas foram enviadas às escolas, juntamente com um manual do professor, contendo respostas e roteiros de aulas.

A medida chamou atenção de Silva, que iniciou em 2009 sua pesquisa, dando origem à dissertação As reformas educacionais do Estado de São Paulo, 2008: repercussões na formação do aluno e do professor de geografia, defendida em 2012, na FFLCH. Ele conta que buscou “conhecer mais profundamente esta política, suas dimensões, intenções, as repercussões para o ensino e, de forma mais próxima, o ensino da Geografia enquanto disciplina preocupada com a formação de um cidadão crítico e transformador de sua realidade.”

Para entender mais sobre a Proposta Curricular e como ela alterava a dinâmica do ambiente escolar, o geógrafo usou conceitos formulados pelo sociólogo Pierre Bourdieu, como campo, habitus, capital, poder simbólico, mecanismos de produção, reprodução e conservação, que forneceram embasamento teórico à sua pesquisa. Como parte do método qualitativo, Silva também analisou documentos oficiais da área da educação dos Governos Federal e Estadual, não apenas entrando em contato com eles, mas compreendendo e interpretando aspectos de sua elaboração.

Ainda na metodologia qualitativa, o geógrafo aplicou questionários a professores de dez escolas públicas estaduais da Diretoria de Ensino Sul 3, da capital paulista. Esta Diretoria de Ensino foi escolhida por ser a que abrange um maior número de escolas no estado de São Paulo. As respostas de 202 professores forneceram um diagnóstico de como os docentes de ensino básico se enxergavam após a implementação do que viria a ser o Currículo oficial. Quatro destes profissionais foram selecionados para cederem uma entrevista ao geógrafo.

A partir das entrevistas, foi feita uma análise semântica, pela qual se dava importância às interpretações expostas pelos professores entrevistados sobre as mudanças. Silva reforça que “esta metodologia foi uma via privilegiada para apreender o ponto de vista e as experiências dos agentes diretamente envolvidos no objeto desta pesquisa, já que considerei o sentido denotativo e conotativo que as falas dos entrevistados apresentaram.”

Papel do professor

Depois de todas as etapas de análise da pesquisa, Silva concluiu que a instauração de um currículo único na rede estadual de ensino foi feita para desenvolver uma cultura de aprendizagem comum a todos os estudante. O pesquisador ressalta que a homogeneização em nome da igualdade de oportunidades promove um maior controle do Estado sobre o trabalho do professor e desconsidera as especificidades locais de cada região que compõe a maior secretaria de educação do Brasil.

Além disso, o geógrafo considera o ensino como uma ação intelectual, onde o professor precisa não apenas ter o domínio, mas, ser capaz de criar e recriar formas de viabilizar o processo de ensino e aprendizagem. Uma vez que o novo sistema negligencia as diferentes formações culturais e de condição de aprendizagem dos alunos, impondo a restrita aplicação de sequências teórica/exercícios de uma apostila pronta para todos, fixa o ritmo que a aula deve seguir, ao mesmo tempo em que determina o tempo que o aluno deve aprender.

Dessa forma, aquele que não acompanha é excluído do sistema de ensino. Assim, diz Silva “estamos diante da negação do ensino público” já que a SEE-SP “pressupõe entender melhor do que o professor, como este deve portar-se e quais as necessidades dos alunos”, esclarece o geógrafo.

A conclusão geral da dissertação é que esta política educacional estabelecida pelo governo estadual paulista nega a autonomia dos professores, estabelece um ensino baseado nas avaliações realizadas pelo próprio Estado e forma um aluno sem iniciativa para questionar e criticar sua condição e realidade, uma vez que o material que lhe serve como base do processo de aprendizagem é a única “verdade” que lhe é oferecida. A pesquisa foi orientada pela professora Nidia Nacib Pontuschka e defendida em maio de 2012, na FFLCH.

Mais informações: edjbsilva@usp.br, com Edjailson da Silva

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