Estudo da FMUSP aponta que garimpeiros e mulheres são mais vulneráveis à aids

Publicado em Saúde por em

Mariana Melo / Agência USP de Notícias

Mulheres de baixa escolaridade e homens que trabalham nas regiões de garimpos se mostraram mais vulneráveis à infecção por HIV no Norte do Brasil. A identificação foi feita em grupos da sociedade da região de Santarém, no oeste do Pará, que eram portadores do vírus. O estudo realizado pelo médico infectologista e pesquisador da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), Paulo Afonso Martins Abati, analisou os perfis sociodemográficos da população com HIV da região para conhecer o perfil local da epidemia.

Ainda que a incidência de HIV tenha se estabilizado no Sudeste, nas regiões Norte e Nordeste esses níveis, entre 1999 e 2010, apresentaram crescimento. Visto a carência de dados anteriores, o trabalho não pode definir se a epidemia na região é recente ou apenas recém-descoberta. Dos fatores que podem justificar esta frequência alta, Abati destaca o grande número de homens mais velhos com parceiras muito jovens e o elevado número de mulheres desamparadas e sem escolaridade, além do costume de homens manterem relações com mais de uma parceira ser socialmente mais aceito.

“A despeito dos serviços de atenção às pessoas que vivem com HIV/aids na região terem melhorado nos últimos dez anos, as pessoas ainda descobrem tardiamente que têm o vírus” diz Abati. “Muitas descobrem quando já estão muito doentes, ainda que, agora, a oferta do teste esteja maior”. Esse diagnóstico tardio implica em maiores dificuldades para tratar a doença. “A região possui o maior índice proporcional de mortalidade por aids do Brasil”, conta.

Amostragem

A pesquisa, que deu origem à dissertação Análise do perfil sociodemográfico, clínico e laboratorial de pessoas com mais de 13 anos vivendo com HIV/aids no oeste do Pará e tendências de incidência de AIDS em Santarém, defendida no início deste ano, foi orientada pelo professor Aluisio Augusto Cotrim Segurado. Abati surpreendeu-se porque, em uma estratégia de vigilância de segunda geração, 7,7% das pessoas com HIV/aids eram garimpeiros. Análises de vigilância de segunda geração correspondem a uma estratégia estatística comum na área de Epidemiologia, na qual os dados coletados pertencem a uma parte representativa da população a ser analisada, escolhida por amostragem.

Essa forma de estudo epidemiológico, segundo o pesquisador, minimiza as imprecisões que o levantamento de dados por meio da notificação compulsória individual da pessoa com HIV/aids pode originar. A captação dos dados provenientes apenas da notificação compulsória, chamada de estratégia de vigilância epidemiológica de primeira geração, depende da percepção ativa dos serviços de saúde e, nem sempre, os profissionais responsáveis estão cientes do preenchimento correto desta ficha.

Convênio

As informações para o estudo foram coletadas de prontuários de pessoas atendidas em serviço ambulatorial de Santarém, que é uma cidade que serve como referência a outros 24 municípios da região oeste do Pará. A FMUSP possui um convênio, desde 2000, com a Secretaria de Saúde do Município de Santarém para atender as demandas assistenciais e preventivas na área de doenças infecciosas da população. “A percepção da importância dos cuidados em saúde pelos serviços assistenciais às pessoas da região é recente se comparada ao Sudeste” avalia Abati.

A intenção do médico, junto com seu orientador, é submeter este trabalho ao Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde (MS) para que os levantamentos realizados contribuam na orientação de políticas públicas para aprimorar o cuidado às pessoas que vivem com HIV/aids, com enfoque especial para as populações mais vulneráveis à infecção.

Mais informações: email pauloabati@usp.br

.