Estudo da FMVZ indica que membrana amniótica canina é inviável na terapia celular

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Rúvila Magalhães / Agência USP de Notícias

Estudos realizados na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP mostraram que as células-tronco da membrana amniótica canina são inviáveis para utilização em terapias celulares. Nos testes realizados na FMVZ em camundongos imunossuprimidos, ou seja, sem sistema imunológico, houve o desenvolvimento de tumores. Os resultados das pesquisas evidenciam que práticas realizadas com humanos nem sempre são válidas para todas as espécies, uma vez que as células isoladas da membrana amniótica humana não formam tumor. A pesquisa foi realizada e orientada pela bióloga Patricia Beltrão Braga, constituindo objeto da tese de doutorado do aluno Evander Bueno de Lima e da dissertação de mestrado de Caroline Pinho Winck, ambos da FMVZ.

A pesquisa Estabelecimento e caracterização de células-tronco fetais de membrana amniótica de cão foi realizada entre 2008 e 2012. Segundo Patrícia, o principal objetivo da pesquisa foi estudar uma nova fonte de célula para terapia celular. O estudo tem em vista também desenvolver técnicas que, no futuro, possam ser aplicadas em seres humanos. Para isso, são exploradas e isoladas novas fontes de células que, após os devidos testes, poderiam ser usadas para tratar os animais com distrofia muscular, que constituiu o objetivo inicial do estudo. As células-tronco usadas na pesquisa foram as fetais, mais especificamente as células da membrana amniótica.

“Na literatura médica está caracterizado que as células da membrana amniótica humana são ótimas na realização de protocolos para a terapia celular. Baseados nesses estudos, achamos válido checar como essas células dos cães funcionam no tratamento dos animais”, explica Patrícia. A facilidade na obtenção de células somada à grande quantidade de cães necessitados de tratamento no canil da FMVZ foram uma motivação a mais para o desenvolvimento da pesquisa.

A membrana amniótica é um anexo embrionário, ela faz parte da bolsa que envolve o feto, segurando o líquido dentro da cavidade amniótica. Essa membrana é translúcida, transparente e fina, com a aparência de um pedaço de plástico. Depois de um tratamento que torne a membrana amniótica humana acelular, ou seja, sem as células, ela pode ser utilizada como curativo natural no tratamento de queimaduras e em doenças oculares, potencializando a regeneração dos tecidos.

Processo

As células utilizadas na pesquisa foram coletadas por meio de cirurgias cesareanas em clínicas veterinárias ou em campanhas de castração oferecidas pela prefeitura. Em todos os casos, os anexos embrionários, que iriam para o lixo assim que os filhotes nascessem, eram recolhidos e levados para o estudo.

Com as células já em laboratório, o processamento era feito em um fluxo laminar, cuja função é manter o ambiente estéril. Após isso, as células foram isoladas e foi feito um estudo de caracterização em níveis morfológicos, celulares e moleculares. Em seguida, verificou-se a capacidade de diferenciação das células. “Para dizer que uma célula é tronco, ela precisa ter algumas características e uma delas é a capacidade de diferenciação em outros tipos de células”, explica Patrícia.

Posteriormente foi executado o teste carcinogênico, importantíssimo em procedimentos com células tronco. Consiste na inoculação das células em camundongos com sistema imunológico suprimido, ou seja, sem sistema imunológico, para avaliar o efeito do procedimento. O teste é responsável por mensurar o potencial que as células têm para produzir tumores.

Resultados

Os camundongos nos quais as células foram inoculadas apresentaram tumores. O efeito foi uma surpresa para os pesquisadores, afinal na literatura específica há muitas comparações entre células de cães, camundongos e seres humanos. Uma possível explicação para o resultado inusitado poderia ser o processo de desenvolvimento embrionário do cão, que é diferente do humano.

O teste permitiu concluir que não se pode usar essas células para promover a terapia celular, como se previa. No entanto, ainda há a necessidade de novos testes para uma confirmação mais efetiva. O estudo prossegue com pesquisadora Graciela Pignatari, em paralelo ao seu pós-doutorado também na FMVZ. Nesta nova etapa estão sendo feitas mais coletas com o objetivo de fazer inoculações também em camundongos não imunossuprimidos, ou seja, com os sistemas imunológicos ativos.

A pesquisa chama a atenção para a necessidade da realização de testes carcinogênicos em pesquisas. “Os resultados mostraram que o teste é muito importante porque se não fosse feito poderia provocar tumor nos animais”, relata Patrícia.

Mais informações: email patriciacbbbraga@usp.br, com Patrícia Beltrão Braga

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