Perto do centenário, gerações da FMUSP dividem lembranças e histórias

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Nesta terça-feira (15), com a apresentação da Orquestra Sinfônica da USP, a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) deu início às comemorações pelo seu centenário, que se completará em 2012. Se a solenidade na Sala São Paulo celebrou as contribuições da instituição no campo social, da ciência e da educação médica,  outro evento recente, e menos formal, colocou frente a frente atuais alunos, médicos formados e personagens marcantes da Faculdade, trazendo histórias dramáticas ou apenas curiosas, mas desconhecidas do grande público.

O Encontro de Gerações da FMUSP, promovido pela Associação de Antigos Alunos da FMUSP (AAAFMUSP),  acontece anualmente no sábado após o Dia do Médico, 18 de outubro. Este ano, o evento contou também com divulgação em redes sociais e transmissão em vídeo ao vivo, pela internet.

Apesar da grande presença de estudantes novos, a maioria dos que vão ao prédio localizado na Avenida Doutor Arnaldo neste dia são representantes das gerações mais antigas. Exemplo de Aida Bortolai Libonati, formada em 1940. A nonagenária, que é a médica mais idosa do Brasil, faz questão de comparecer sempre que pode, acompanhada de familiares.

Convivência

Já nos primeiros momentos de Faculdade de Medicina há uma diferença em relação à maioria dos outros cursos. Durante a recepção dos calouros não há trote. Gabriel Dias de Oliveira, que será presidente do CAOC ano que vem, relata “você chega aqui e te falam ‘agora você é filho de Arnaldo’, é assim que te passam e você começa a fazer parte dessa família”. Atualmente, um estudante de medicina passa, nos anos iniciais, cerca de oito horas por dia na Faculdade. Nos períodos finais esse número pode passar de 12. “Depois de um tempo, todos os seus amigos são da Faculdade”, completa Lucas de Oliveira Serra Hortêncio, atual presidente do CAOC.

Hortêncio ressalta outro ponto, o termo ex-aluno não é usado na Faculdade de Medicina. O correto, segundo ele, é antigo aluno. “Uma ideia que vive na Faculdade é que você nunca deixa de ser aluno, é só alguém com mais tempo de casa, com mais experiência”.

Faculdade de Medicina e a Ditadura

Durante a Ditadura Militar, os alunos da Faculdade de Medicina também se envolveram politicamente. Nos anos mais difíceis, as entidades da Faculdade polarizavam as orientações políticas dos estudantes. De um lado estava o Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (CAOC), de esquerda; de outro, a Atlética (Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, AAAOC) e o Show Medicina, que reuniam os de direita, segundo Alcyr Rozante Sotto.

Sotto foi presidente da Atlética em 1970. “Até o ano anterior, o pessoal que ficava na Atlética era o pessoal de direita e o pessoal da esquerda ficava no Centro Acadêmico. Tinha rivalidade, uma briga, um negócio bem com ódio mesmo. Eu entrei nessa para conciliar, porque o ambiente estava muito pesado. Procuramos só fazer esporte, deixar a política de lado”.

Ele relata uma reunião ocorrida no Departamento de Bioquímica, do Instituto de Química (IQ) da USP, da qual participou, a pretexto da criação de um torneio esportivo na USP. Quem o convidou foi Gelson Reicher, estudante da Faculdade. Membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), Reicher foi fuzilado pelos militares em 1972. O real motivo da reunião, desconhecido por Sotto até então, era a articulação da luta armada. “Eu pensei ‘Meu Deus, se eu saio, eu sou delator, se eu fico, posso ser preso’”.

Chega a ser consenso entre os antigos e novos alunos da Medicina que um deles foi fundamental neste período. Trata-se de Reinaldo Morano Filho, o Xixi (1971/1979). Em um breve histórico, Xixi participou do Congresso da UNE de 1968, quando foi preso. Poucos dias antes do Ato Institucional Nº 5 ser decretado, ele foi solto. Após um período na clandestinidade, foi novamente preso, permanecendo na prisão por mais de seis anos e sofrendo torturas. As duas datas de formatura, 1971 e 1979, são uma homenagem da Faculdade, já que Xixi se formaria em 71, quando foi preso, mas obteve o diploma em 1979, ao retornar.

Os professores não ficaram incólumes. Logo após a tomada do poder pelos militares, vários professores foram perseguidos. Os departamentos de Fisiologia e Parasitologia foram os que mais sofreram, uma vez que concentravam grande parte daqueles que eram contra o regime. Geahar Malnic (1957) orgulha-se de sua atuação em favor de, por exemplo, Paulo Vannuchi, Isaías Raw, Alberto Carvalho da Silva e Thomas Maack.

Mas os antigos alunos também têm histórias divertidas sobre o tempo em que eram graduandos. São causos daqueles que se passa aos filhos e netos e que enchem a roda quando contados.

A pizza dos burros

É causo de molecagem de estudantes, contado por Sergio Antonio Bastos Sarrubbo (1974). Quando entrou na Faculdade, ele e seus colegas de turma receberam um diploma, entregue, entre outros, por Xixi: o diploma de burro. Obviamente, uma brincadeira dos veteranos para os calouros se integrarem.

Devidamente “diplomados”, os alunos seguiram a uma pizzaria para realizarem a comemoração. Para não amassar, entregaram os “documentos” a Luiz Katsumi Utaka (1974), que estava com uma pasta.

Ao fim da noite, resolveram em comum acordo dar um pendura na pizzaria e saíram sem pagar. Todos exceto Utaka, que estava no banheiro. O dono da pizzaria chamou a polícia e todos os diplomas foram usados como prova do pendura. “Consequentemente, fomos obrigados a pagar a dívida posteriormente”, conta Sarrubbo em meio a risos.

O facão, a cabritinha e a van

Quem vê Raul Gorayeb (1974), um senhor baixinho, de cabelos bem grisalhos e barba cheia, não imagina como foi uma de suas incursões pelas artes cênicas.

Era 1970 e pediram para os alunos de medicina fazerem um happening, apresentação artística baseada na improvisação, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). “A gente [estudantes] tinha aquelas imagens estereotipadas. ‘Estudante de medicina só quer saber de cortar gente’, ‘estudante de direito não sei o quê’… Achamos engraçado isso”.

Para a apresentação, levaram cobaias da Faculdade, uma cabrita e sucos em pó. Os animais viraram “oferendas”; o sucos em pó, elixires afrodisíacos. “Eu arranjei um facão desse tamanho não sei aonde. Ficava fazendo de conta, passava na cabritinha* e tal”. Enquanto isso, o resto do grupo tocava música.

“Mas aí teve uma turma que começou a levar a gente a sério demais”, conta Gorayeb rindo, “eles devem ter pensado que éramos os maiores sanguinários da paróquia”. Os estudantes de medicina prosseguiram a apresentação, que não durou muito tempo, uma vez que um grupo de espectadores já começava a cercá-los. “Aí chegou uma hora em que alguém da banda falou assim ‘Sujou! Vamos embora correndo daqui pelos fundos porque querem bater em nóis. E eu falei: ‘P…, o quê que eu faço agora?’ ”.

Os outros estudantes tinham conseguido sair e estavam numa van; Gorayeb estava encurralado. Mas tinha seu facão. “Resolvi encarnar um personagem qualquer, comecei a fazer uma cara brava, fazer cara de sanguinário e falar assim ‘Quem vai ser o primeiro?’, ‘Vem aqui que eu quero passar a faca!’. Eles ficaram apavorados e pensei ‘é a minha salvação’ ”. Quando deram uma brecha, Gorayeb foi correndo em direção à van, que já estava ligada, numa saída em alto estilo.

* Nenhum animal foi morto ou maltratado, tanto na apresentação dos estudantes de medicina, em 1970, quanto na realização desta matéria.

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