Ser africano em terras brasileiras

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No subsolo da Casa de Cultura Japonesa da USP, pesquisas sobre… africanos? Isso mesmo, é lá que fica o Diversitas, Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da USP, onde Teresa Cristina Teles desenvolve sua dissertação de mestrado Histórias de vida dos refugiados angolanos em São Paulo.

Em 2010, o Núcleo desenvolvia um projeto de pesquisa sobre Imigrações Contemporâneas em Cidades Globais. Durante o processo, eles observaram a ocorrência relativamente recente de um movimento migratório de africanos para o Brasil, sobretudo aqueles vindos de países de língua portuguesa.

Procurando atraí-los para, através de suas histórias, compreender esse novo fluxo, o Núcleo realizou o Primeiro Encontro Brasil – África, momento em que lançaram uma carta aberta convocando a participação desses africanos na pesquisa. “É um trabalho de fala oral, estávamos interessados em contar a analisar a imigração no Brasil a partir da própria fala desses imigrantes”, explica Teresa. A maior parte dos africanos que se apresentaram para participar da iniciativa eram da própria comunidade USP, principalmente moçambicanos.

Por meio de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para estabelecer redes de integração com outras universidades, o Núcleo criou parcerias em Portugal, Angola e Moçambique. A ideia era que, a partir das entrevistas coletadas pelo grupo com africanos no Brasil, os parceiros de outros países fossem atrás do depoimento das famílias, residentes na África, desses mesmos africanos.

A dissertação de Teresa acabou focando na imigração angolana em São Paulo. Ela destaca dois perfis diferentes entre esses angolanos. Aqueles que já vêm para estudar, principalmente na USP, são bem acolhidos por seus programas de bolsa e intercâmbio. As maiores dificuldades por eles relatadas estão ligadas a algum tipo de situação de racismo que sofreram.

Já os angolanos que vem por conta própria encontram maiores dificuldades. Segundo Teresa, a corrupção em Angola é muito grande e o custo de vida, muito alto. Fazer universidade particular no Brasil compensa mais financeiramente do que bancar uma universidade angolana. “Não são pessoas de classe média. É a família ‘alargada’ – tios, primos, padrinhos – que ajuda a manter os estudos do mais jovem no exterior para que ele se forme, volte para sua cidade natal e retribua o resto da família com os conhecimentos que obteve neste tempo e financeiramente, contribuindo para que os outros mais novos estudem fora, dando prosseguimento ao ciclo”, explica Teresa.

Os estudantes angolanos que vem sem o auxílio de bolsas reclamam, no geral, da dificuldade em se encontrar moradia. Teresa lembra que eles não podem sequer alugar uma casa, porque precisariam de fiador. Como consequência disso, criou-se uma rede de “camaradagem” nem tão despretensiosa. “Angolanos mais velhos, estabelecidos em São Paulo há mais tempo cobram para serem fiadores dos recém chegados”, aponta.São Paulo é um destino muito procurado por estes africanos porque, além da possibilidade de estudar, os jovens podem realizar pequenas atividades de comércio. Teresa ressalta o intenso fluxo das “muambeiras de Luanda”, que vem até a região do Brás, na capital, para comprar roupas, chinelos e cabelo, para depois comercializá-los em Angola. “O Brás criou uma rede para receber esses comerciantes, com pequenos hotéis, oferta de alimentação. Muitos angolanos com quem conversei dizem que encontram no Brás um pouquinho de Angola”, conta a mestranda.

E foi exatamente para auxiliar esses jovens que o angolano Marseu de Carvalho criou a União de Estudantes de São Paulo (UNEA). Ele veio para o Brasil com a promessa de estudar em uma universidade particular do interior paulista. O pacote incluía, além de um faculdade que se dizia de excelência, moradia e transporte. Quando chegou, ele percebeu que havia sido enganado. O ensino não era o que esperava, a moradia era uma casa superlotada e com aluguel muito acima da média da região.

Segundo relatos de Marseu na pesquisa de Teresa, o grupo se reúne semanalmente aos domingo para debater questões políticas e econômicas ligadas à estadia deles em São Paulo. Por vezes, são realizadas pequenas palestras, por exemplo, sobre como economizar energia, água e gás.

Teresa percebeu, ao longo de seus estudos, como os angolanos foram reinventando sua cultura e costumes – carregados de muitos rituais e tradições fortes – de modo a ressignificá-los e adaptá-los aos espaços e relações cotidianas de seu novo contexto. Ela conta que uma das perguntas que sempre fazia aos entrevistados era “O que significa ser estrangeiro?”. E destaca, em seus relatos, a resposta de Marseu: “Ser estrangeiro é se encontrar no meio de uma sociedade que você desconhece, de uma cultura que você não sabe nada, ou seja, ser estrangeiro é renascer, começar do zero. Sair de um lugar para o outro é recomeçar, aqui você vai ter que fazer amigos, fazer irmãos dentro dos amigos, ter uma casa para morar, um trabalho, uma escola, formar uma opinião baseada naquela sociedade.”

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