Mil edições: histórias de um jornal… história de um texto…. histórias de vida

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Valéria Dias, da Agência USP de Notícias

Em 1985 eu tinha 13 anos e cursava o antigo ginásio. E nem sonhava em ser jornalista. Hoje, 13 anos após começar a trabalhar como repórter na Universidade de São Paulo, eu publico este especial sobre a milésima edição do Jornal da USP.

Pessoalmente fiquei muito feliz quando o meu diretor, o jornalista Antonio Carlos Quinto, me incumbiu dessa tarefa. Primeiro porque é bastante diferente das pautas que costumo cobrir para a Agência USP de Notícias, onde atuo como repórter. Mas principalmente porque um dos primeiros textos que escrevei como funcionária da USP foi publicado exatamente no Jornal da USP: era sobre a visita de Ricardo Lagos, então presidente do Chile, à Universidade. Na época, apesar de ser funcionária da Agência, cobri a pauta também para o Jornal.

Por isso, assim que recebi a pauta da milésima edição fiquei empolgada e pensando como iria produzir a reportagem. O texto principal era o básico. Entrevistas com o diretor de redação, com o pessoal da arte….. Meu diretor sugeriu uma fotorreportagem com algumas capas. E eu pensei também em uma foto com todos da redação e cada um dando um depoimento sobre o jornal.

Nas últimas semanas estive envolvida com tudo isso. Coincidir as agendas de todos foi complicado, mas mostrou-se possível. Apesar das dificuldades, conseguimos tirar a tal da foto com a equipe do Jornal. Depois, foi preciso conversar com o Pedro Bolle, editor de arte das Mídias Online, e combinar como faríamos o especial. Depois precisei aguardar a chegada dos depoimentos. Pouco a pouco as mensagens foram aparecendo em minha caixa de email. Precisei cobrar algumas pessoas uma ou duas vezes. Mas no final, todos contribuíram.

Muitos depoimentos me emocionaram. Soube, por exemplo, que o Jorge Maruta, editor de fotografia do Jornal, trabalha na USP desde 1972… ano em que eu nasci. Muitos depoimentos coincidiram, sem que as pessoas conversassem sobre eles. Por exemplo, o Maruta citou a viagem que fez ao Pantanal para uma reportagem sobre araras-azuis como uma das coisas mais marcantes que vivenciou. O Moisés Dorado citou a mesma reportagem, mas pelo fato de as araras azuis terem sido impressas na cor preta. Já a Cecília Bastos e o Paulo Hebmüller citaram, ambos, a viagem que fizeram à Amazônia. O pessoal da arte (Moisés Dorado, Flávio Alves Machado) contaram várias histórias sobre as capas, as ilustrações, e outros causos. Já outros depoimentos me fizeram rir: imaginar a Cecília Bastos e o Roberto Castro fugindo de búfalos em Pirassununga!

Eu também me diverti muito ao folhear as edições arquivadas do Jornal da USP e acompanhar a evolução gráfica pela qual o jornal passou, que acaba se confundindo com a própria evolução gráfica do jornalismo impresso. É interessante folhear uma edição de 1990 e compará-las com as atuais.

Lide inesquecível

Ao longo desses 13 anos, muitos outros textos meus foram reproduzidos pelo Jornal da USP. Eventualmente também utilizamos textos deles, afinal somos todos colegas de Superintendência de Comunicação Social (SCS). Um desses textos considero muito marcante.

O ano era 2003, os Estados Unidos haviam invadido o Iraque. O Miguel Glugoski havia publicado no Jornal o texto “A guerra segundo um iraquiano” sobre um professor da USP nascido no Iraque: Mahir Saléh Hussein, do Instituto de Física. Esse professor havia sido convidado para um congresso nos Estados Unidos, mas o consulado negava o visto para ele. E o professor tinha vários parentes morando no Iraque.

Meu diretor pediu que eu editasse o texto e enviasse como boletim extra. E assim o fiz.

Como o texto da Agência USP é mais direto e objetivo, precisei cortar o lide e outras partes também. Assim que terminei a edição, montei o boletim e enviei para o nosso mailing de imprensa. Não havia passado nem um minuto do envio do boletim quando o telefone da redação tocou: era o pauteiro de uma grande rede de televisão brasileira querendo entrevistar o professor Hussein.

Mas o texto publicado pelo Miguel Glugoski me marcou também por um outro motivo: foi um dos lides mais interessantes que eu já tive o privilégio de ler:

Na superfície, a água abundante dos rios Tigre (1.718 km) e Eufrates (2.330 km); no subsolo, enormes lençóis de petróleo; no poder, um ditador implacável, cercado e ameaçado por exércitos que vêm de longe, de outros continentes, interessados nessas riquezas e no firme propósito de estabelecer ali um ponto de apoio para melhor controlar o Oriente Médio. Entre tiranias e cobiças, um povo boicotado e empobrecido. A antiga Mesopotâmia, berço das civilizações suméria, acádica, babilônica, assíria e hitita, pioneira da pesquisa científica, da matemática moderna, da astronomia e da álgebra, cenário das Mil e Uma Noites, está em pé de guerra. De longe, da USP em São Paulo, um professor nascido em Bagdá, com especialização em física nuclear nos Estados Unidos, docente titular do Instituto de Física, acompanha com apreensão o conflito no Iraque. Mahir Saléh Hussein não se preocupa apenas com a sorte de seu país, em geral; teme pela vida de duas irmãs e dos muitos primos que vivem na capital iraquiana. Pessoalmente, reclama de injustiça de que seria vítima por parte do consulado norte-americano em São Paulo que, segundo ele, há mais de dois meses vem retendo seu passaporte, impedindo que atenda a convite de cientistas da Universidade do Texas para participar de um projeto em sua especialidade. Considera que esse é o preço que paga por ter origem árabe e, sobretudo, por levar o mesmo sobrenome do ditador Saddam Hussein, tão comum no Iraque como Silva no Brasil. “Eu sou brasileiro desde 1978, cientista com estreito contato com universidades norte-americanas, francesas e japonesas, e considero o seqüestro do meu passaporte um ultraje a todos os cientistas brasileiros.

O texto “A guerra segundo um iraquiano” está disponível na íntegra neste link.

Quando à edição mil do Jornal da USP estará disponível a partir do dia 3 de junho.

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