Pesquisa da ECA mostra as diferentes origens da bossa nova

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Fernando Pivetti / Agência USP de Notícias

Um estudo elaborado pelo Departamento de Música (CMU) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP trouxe uma nova perspectiva sobre as origens da bossa nova. A pesquisa apontou que o tradicional estilo musical brasileiro, conhecido nas vozes de artistas como Tom Jobim e Vinicius de Moraes, teve grande base apoiada na bossa dos chamados “sambistas de morro”, o que derruba a ideia de o centro da bossa nova estar localizado em um apartamento de Ipanema.

O projeto teve como base principal de análise a contribuição de João Gilberto, tido como pioneiro da bossa nova, para a música popular brasileira. Nesse ponto, o pesquisador Enrique Valarelli Menezes procurou mostrar como o cantor traz à tona em sua performance, de forma consciente e esclarecida, toda a melhor tradição do samba popular brasileiro. “Acabei caindo no rico universo rítmico de nossa música popular, particularmente no samba sincopado, porque é ali que João Gilberto foi mexer”, garante . “As análises que faço na dissertação são tentativas de traduzir em imagens as soluções rítmicas e musicais encontradas por esses sambistas.”

Para o pesquisador, João Gilberto soube como poucos cantar samba de um jeito moderno, incluindo em sua voz a forte criação dos chamados “mulatos pobres dos subúrbios metropolitanos”, colocada em golpe de mestre no centro da experiência intelectual e artística brasileira. “Sua performance procura percorrer todo o arco social urbano e moderno. Por ser uma “bossa nova”, sua música é a análise minuciosa e muito atenta da “bossa” do samba criado nas favelas das capitais em expansão, multiplicando a voz potente do morro nos meios industriais da cidade”, explica.

Durante as pesquisas, Menezes partiu de análises formalistas, seguindo uma interpretação social e depois histórica, sem fazer sociologia nem história da música e acredita que a metodologia da qual mais tentou se aproximar foi “a da crítica dialética, em sua vertente brasileira, recorrendo sempre a Antonio Candido, Roberto Schwarz e José Antonio Pasta, entre outros”.

Refinamento musical

O pesquisador destaca também o nível de refinamento ao qual João Gilberto levava o samba tradicional, e considera esse nivelamento uma das principais contribuições do artista para o ritmo. Outro ponto importante apontado por ele está na força da estrutura musical criada por músicos como Paulo da Portela para dar conta de uma realidade perversa. “É impressionante ainda, e sempre, o poder que a indústria cultural tem de cercar e destruir, como a EMI tem insistido até hoje em fazer com as gravações de João Gilberto sobre as quais tem direitos. Também me surpreende muito o caráter ornamental da pesquisa acadêmica brasileira em música, pouco interessada em levar o debate para além de seus próprios clubes especializados”, completa.

Queda de barreiras

A pesquisa também buscou levantar uma questão importante para a evolução da música brasileira como um todo. Segundo o estudo, a inconsistência do arco social percorrido por João Gilberto é tão grande que chega-se à conclusão de que essa realidade não permite ser mudada de forma simbólica. Para o pesquisador, “a cisma profunda que foi criada entre pobres e ricos no Brasil é de tal forma engessada que, às vezes, cabe ao samba e também à crítica atuar de forma negativa: denunciar a ideologia, mas principalmente formar com ela um forte contraste, que acentue e deixe definitivamente claras as potências sociais que não encontraram sua forma real de serem potentes”.

Fazendo ecoar essa voz do morro nas rádios do mundo inteiro, João Gilberto cria um contraste admirável com a atual intenção de nosso sistema econômico global de aprofundar cada vez mais a diferença entre pobres e ricos. “Acredito ainda que a produção acadêmica pode, se quiser, engrossar esse coro, trombando e refletindo com as mesmas vozes com as quais o artista mexeu, a fim de também chamar a atenção das pessoas para a perversão da cultura capitalista”, completa.

Mais informações: email enrique.menezes@usp.br

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