Regulação é vital na área de alimentação, cigarro e álcool

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Valéria Dias/ Agência USP de Notícias

Apenas a regulação pública seria eficaz para prevenir os efeitos danosos que as ‘unhealthy commodities’ (cigarros, bebidas alcoólicas e alimentos ultra-processados) exercem sobre as doenças crônicas, como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e certos tipos de câncer. De acordo com o artigo Profits and pandemics: prevention of harmful effects of tobacco, alcohol, and ultra-processed food and drink industries, veiculado em fevereiro na revista The Lancet, as indústrias que vendem ‘mercadorias que produzem doenças’ não poderiam ter nenhum papel na formação nacional ou internacional de políticas de combate a essas doenças.

“Há várias alternativas para lidarmos com o problema, mas a principal está em conseguir colocar a questão na agenda política da sociedade civil e dos partidos políticos”, aponta um dos autores do artigo, o professor Carlos Augusto Monteiro, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

São exemplos de alimentos ultra-processados pães industrializados, produtos panificados, biscoitos, ‘salgadinhos’, barras de ‘cereal’, ‘cereais matinais’, guloseimas em geral, embutidos, ‘nuggets’, ‘sopa instantânea’, ‘macarrão instantâneo’, refrigerantes, ‘bebidas esportivas’ e outras bebidas açucaradas.

O texto descreve a evolução mundial das vendas dos ‘unhealthy commodities’, mostrando um enorme crescimento nos países de baixa e média rendas; e examina as estratégias utilizadas pelas indústrias transnacionais para minar políticas públicas que poderiam inibir o crescimento do consumo pela população e que são similares e compartilhadas pelos três setores industriais.

O conceito de ultra-processamento dos alimentos foi criado no Nupens. “São mesclas de substâncias extraídas de alimentos, como óleos, gorduras, açúcares, amidos, ou de outros componentes processados a partir dessas substâncias, como gorduras hidrogenadas, proteínas hidrolizadas, amidos modificados, adicionadas de conservantes e de aditivos cosméticos e que contêm pouco ou nenhum alimento integral na sua formulação”, define o docente. Se consumidos ocasionalmente, eles não prejudicam a saúde. “Mas o que se vê em todo o mundo é a rápida substituição das dietas baseadas em alimentos por produtos prontos para consumo e os ultra-processados.”

Legislação

Segundo o professor, a legislação no Brasil praticamente ignora os alimentos ultra-processados graças ao eficiente lobby exercido pelas grandes e poderosas indústrias de alimentos que controlam o setor. “Já houve várias tentativas ensaiadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária [Anvisa] mas nenhuma chegou a ser implementada. Mas o setor vem sendo regulado de forma crescente em outros países do mundo.”

“O lucro auferido com a comercialização desses produtos é investido pesadamente em campanhas publicitárias. A conveniência, acessibilidade e hiper sabor desses produtos, somados às campanhas publicitárias, explicam o seu crescimento em todo o mundo”, completa, lembrando que um grupo de pouco mais de uma dezena de transnacionais domina esse mercado.

Entre as estratégias dessas indústrias estão fazer produtos cada vez mais convenientes e saborosos para criar hábito ou desenvolver graus moderados de adição; a comercialização agressiva, com intensa publicidade, visando a substituição dos alimentos que fazem parte das dietas tradicionais. “Essas estratégias incluem ainda um sistemático trabalho visando sabotar qualquer tentativa de regulação do setor”, alerta o pesquisador, a exemplo do que fez a indústria do tabaco no século passado. A regulação envolveria, por parte das autoridades de saúde, a restrição de publicidade, no uso de aditivos, na rotulagem efetiva de produtos, impostos, etc. “Para isso, as indústrias tentam cooptar políticos e autoridades e, lamentavelmente, também pesquisadores e instituições acadêmicas.”

Dieta baseada em alimentos

Monteiro destaca que os trabalhos do NUPENS realizados no Brasil e em vários países da América Latina, Estados Unidos, Canadá e Europa, em colaboração com pesquisadores locais, indicam que a dieta tradicional, baseada em alimentos, é, nutricionalmente, muito superior àquela baseada em produtos ultra-processados. “As principais diferenças são quanto à maior densidade energética e ao maior conteúdo de açúcar, gordura saturada e gordura trans e sódio nos produtos ultra-processados, e menor conteúdo de fibras e micronutrientes, muito maior na dieta tradicional.”

A formulação de alimentos ultra-processados visa obter produtos de baixo custo pouco ou nada perecíveis, intensamente palatáveis e prontos ou quase prontos para consumo. “Esses produtos têm baixo custo e estão associados a altíssimas margens de lucros para as empresas que os produzem”, finaliza o professor.

Mais informações: email carlosam@usp.br, com o professor Carlos Monteiro

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