Paciente grave tem mais risco de infecção pós-transplante, aponta pesquisa da FMUSP

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Júlio Bernardes / Agência USP de Notícias

Pacientes em estado grave submetidos a transplantes de fígado que vêm de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), ou apresentam quadros infecciosos ou de insuficiência renal, apresentam maior risco de infecções pós-cirurgia, como revela pesquisa do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Os resultados do trabalho, descrito em artigo publicado nos Estados Unidos, poderão auxiliar na preparação dos pacientes para o transplante, aumentando as chances de êxito no procedimento e reduzindo os riscos de mortalidade.

A pesquisa procurou analisar o comportamento de infecções em pacientes submetidos ao transplante de fígado escolhidos pela gravidade do caso. “Esse critério, conhecido como Modelo para Doença Hepática em fase terminal (MELD), substituiu a indicação de transplante por lista de espera, disposta em ordem cronológica”, afirma o médico Luiz Carneiro D’Albuquerque, professor da FMUSP e diretor da Divisão do Aparelho Digestivo e Coloproctologia do HC, que coordenou a pesquisa.

“Anteriormente, a pessoa poderia sair de sua casa para ser transplantada, sem apresentar maiores complicações de saúde. Com a adoção do MELD, tornam-se mais comuns os casos de pacientes que saem de UTIs para se submeterem à cirurgia”. O estudo analisou os casos de 597 pacientes que passaram por 543 transplantes de fígado no HCFMUSP, entre os anos de 2002 e 2011. “Como se tratavam de casos mais graves, a maioria dessas pessoas fazia uso de hemoderivados ou apresentavam insuficiência renal, o que as obrigava a passar por sessões de hemodiálise”, conta o médico.

Infecções

Segundo D’Albuquerque, quando é considerada a totalidade da população transplantada, a presença de infecções, entre as quais as de pele e bexiga, não causa impacto significativo nas taxas de mortalidade. “Entretanto, ao se analisar os casos mais graves, percebe-se que a repercussão em termos de infecções e de mortalidade pós-transplante é bem maior”.

A situação verificada em São Paulo é semelhante a apontada nas pesquisas realizadas em outras partes do mundo, de acordo com o médico. “Na Alemanha, por exemplo, a mortalidade de pacientes transplantados que vêm de hospitais, fazem uso de medicamentos, realizam hemodiálise ou usam suporte respiratório chega a 70%”, diz. Com base nos resultados do trabalho, D’Albuquerque sugere que a alocação de órgãos para transplantes de fígado em casos de urgência leve em consideração o estado geral do paciente.

“Se a pessoa está na UTI ou já apresenta um quadro infeccioso, ela seria tratada previamente para que pudesse ser operada em uma condição melhor, de modo que o procedimento consiga ter mais êxito e não haja necessidade de um novo transplante”. A autorização de cessão de órgãos é feita pela Câmara Técnica de Fígado do Sistema Nacional de Transplantes, sediada em Brasília (DF).

O estudo é descrito no artigo Surgical site infection in liver transplant recipients in the MELD era: Analysis of the epidemiology, risk factors, and outcome,publicado no último dia 7 de junho no periódico Liver Transplantation, editado nos Estados Unidos. A pesquisa foi apresentada em uma mesa-redonda no “40º Curso de Atualização em Cirurgia do Aparelho Digestivo, Coloproctologia, Transplante de Órgãos do Aparelho Digestivo e Endoscopia (Gastrão)”, realizado no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, entre os dias 1 e 5 de julho.

Mais informações: email profluizcarneiro@gmail.com, com o professor Luiz Carneiro D’Albuquerque

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